Hiltor Mombach

“Escurinho Não Cabeceia Mais na Área do Grêmio”

Prezado Hiltor, em primeiro lugar, obrigado pela divulgação do livro em tua coluna de hoje.
O lançamento será no dia 25 de setembro (data em que o título de 77 completa 40 anos), na

Hamburgueria 1903, do Shopping Praia de Belas, a partir das 18:30.


Segue, em anexo, um dos capítulos do livro, precisamente o capítulo sobre Oberdan, cuja

frase foi muito emblemática para nós gremistas.


Abç / Daniel Sperb Rubin


“Escurinho Não Cabeceia Mais na Área do Grêmio”



(Oberdan, 17.04.1977)

Durante os oito anos de derrotas consecutivas, o Grêmio ressentia-se de uma liderança forte dentro de campo. Ancheta tinha sido o capitão nas últimas temporadas e fazia o que podia. Mas era insuficiente, e afora ele, ninguém mais parecia ter um perfil adequado para segurar o rojão. Talvez tenha se formado no Grêmio o consenso de que o grande líder deveria vir de fora. Deveria ser alguém que não tivesse nenhuma relação com os anos de derrotas. O clube resolveu fazer uma aposta em alguém que já se preparava para largar o futebol. E acertou na mosca.

Oberdan Nazareno Vilaim desembarcou no aeroporto Salgado Filho em 04 de janeiro de 1977, contratado junto ao Coritiba. Chegou acompanhado de sua esposa, gaúcha de Santo Ângelo, o que, segundo ele, facilitou sua decisão. Já tinha 31 anos de idade, e estava quase abandonando o futebol, para se dedicar ao seu negócio de exportação de mel em Santa Catarina. Ao chegar, disse que se identificava muito com a torcida do Grêmio, e que resolvera aceitar o desafio, porque, em Porto Alegre, era torcedor do tricolor. Não prometeu que o Grêmio seria campeão, mas disse que a torcida podia esperar dele muito sacrifício e vontade de lutar. E acrescentou que “isto a torcida poderá confirmar mais tarde”. A frase de Telê Santana, “primeiro homens, depois jogadores”, começava a fazer sentido e parecia ter sido entendida pela direção.

Reza a lenda que, ao final de um campeonato paranaense, jogando pelo Coritiba, Oberdan teria dito: “Não encerro a minha carreira sem antes dar um soco na cara de um juiz”. Bem, aí estava um sujeito determinado. O Grêmio precisava de alguém assim. Não de alguém que batesse em juiz, é claro. Mas de alguém que demonstrasse irresignação e indignação com a derrota e também, porque não, com os erros de arbitragem que prejudicassem o Grêmio. Ainda sobre Oberdan, no dia do primeiro Grenal daquele Gauchão, em 17 de abril de 1977, João Carlos Belmonte, em sua coluna dominical no Correio do Povo, intitulada “Agenda”, à pág. 60, publicou uma notinha que contava uma história muito interessante. O título da nota era “Oberdan, segundo Figueroa”, e dizia:

“Perguntaram a Figueroa, ano passado, como o Internacional perdera para o Coritiba. Resposta: ‘Tomamos um golo (sic) no início da partida, e como nosso time era melhor, fomos para cima. Aí o Coritiba ficou retrancado e dentro da área tinha um jogador que dava mais pontapé do que eu’. O jogador era Oberdan” completava a nota de João Carlos Belmonte.

Deixando de lado o evidente exagero em relação aos pontapés, aí estava alguém que não se deixava intimidar, e que não tinha medo de cara feia. Depois de oito anos de derrotas, o Grêmio precisava muito de alguém assim. E embora fosse um zagueiro muito duro e viril, Oberdan jamais foi desleal. Mas também não levava desaforo para casa.

Porém, o que tornou Oberdan verdadeiramente uma lenda para os gremistas, foi uma frase dita ao final do Grenal 229, o primeiro do Gauchão de 77, quando o Grêmio aplicou uma estrondosa goleada de 3 x 0 no rival. Ao final daquele jogo, Oberdan declarou, com todas as letras: “Escurinho não cabeceia mais na área do Grêmio”. Na verdade, a frase foi um pouco diferente. A Folha da Tarde, em sua edição de 18 de abril de 77, na página central reproduziu as seguintes palavras de Oberdan:

“Agora acabou a moleza. Pelo menos sozinho o Escurinho não cabeceia mais”.

Mais tarde, na edição de 24 de maio de 1977, Oberdan voltou a declarar à Folha da Tarde, desta vez, mais confiante e incisivo: “Escurinho, enquanto eu estiver em campo, não marcará gol de cabeça no Grêmio”. Oberdan dobrara a aposta. Reafirmara a promessa. Era coisa para quem confiava muito em si mesmo.

Quando o Gauchão se aproximava de seu final, no dia em que seria disputado o Grenal que decidiria a terceira fase do certame, no Beira-Rio, em 18 de setembro de 1977, o jornal Zero Hora novamente faria referência a esta frase de Oberdan. À página 51, o periódico recordava assim as palavras que o zagueiro dissera ao fim do Grenal 229, disputado em abril:

“O tal do Escurinho esse é muito ruim. Enquanto eu jogar no Grêmio ele nunca mais vai fazer gols de cabeça. Não vai nem mesmo cabecear uma bola”.

Com o tempo, a frase foi simplificada, e tornada mais objetiva, adquirindo sua forma final: “Escurinho não cabeceia mais na área do Grêmio”. Muitos ainda pensam que Oberdan deu essa declaração ao desembarcar no aeroporto Salgado Filho. Mas a frase foi dita ao final do Grenal 229, disputado em 17 de abril de 1977.

Para os mais jovens, é preciso explicar quem era Escurinho. Até o advento do extraordinário Jardel, Escurinho havia sido, provavelmente, o maior cabeceador da história do futebol gaúcho. Era um meia atacante alto, esguio e elegante, que tinha no cabeceio sua principal virtude. Embora nunca tivesse sido titular absoluto do Inter, sempre que o jogo se complicava Escurinho era chamado e, invariavelmente, fazia um gol de cabeça. E algumas vezes, fez isso contra o Grêmio.

Eu mesmo, então com 11 anos de idade, assisti a um desses Grenais em que Escurinho marcou no final do jogo. Foi no Grenal 226, disputado em 18 de agosto de 1976, no Olímpico. O Inter estava dois pontos à frente do Grêmio, no segundo turno do quadrangular final do Gauchão, e já havia vencido o primeiro turno do quadrangular, com o que garantira o direito de ir à final. Se o Grêmio vencesse, haveria mais Grenais para decidir o campeão do segundo turno do quadrangular final. Se o Inter apenas empatasse, ficaria a um passo do Octacampeonato, bastando vencer o Grenal seguinte, que seria disputado no Beira-Rio.

Pois Bem. O Grêmio abriu o placar com um golaço de Tarciso, de fora da área, aos 35 minutos do primeiro tempo. Tarciso já havia jogado 15 Grenais, sem nunca ter feito um mísero gol sequer. Mas quando fez, foi um golaço. A torcida do Grêmio explodiu.

No segundo tempo, o Inter veio para cima, e começou a apertar o Grêmio. Caçapava machucara-se ainda no final do primeiro tempo, e fora substituído por Escurinho. Normalmente, Escurinho entrava quando faltavam 15 ou 20 min para o fim da partida e o Inter não conseguia marcar. Escurinho entrava e, quase sempre, de cabeça, deixava a sua marca. Desta vez, em razão da lesão de Caçapava, Escurinho entrara antes.

À medida que o segundo tempo transcorria, o Inter aumentava a pressão e o Grêmio tentava se defender. Com a aproximação do fim do jogo, a torcida do Grêmio estava dividida entre a alegria da vitória que estava próxima, e a tensão pela possibilidade de, como em outras vezes, Escurinho marcar um gol de cabeça no último minuto. Atrás de mim, nas frias arquibancadas de concreto das sociais do velho Olímpico, estava um rapaz na casa dos seus 20 anos. Faltando uns 10 minutos para o fim do jogo, ele começou a repetir, como se fosse um mantra: “se eles não fizeram até agora, não fazem mais, se eles não fizeram até agora, não fazem mais”. E foi assim até os 44 min do segundo tempo, quando houve um escanteio para o Inter. Um calafrio percorreu a espinha da torcida do Grêmio. Escurinho estava na área. Jair bateu o escanteio da direita e Escurinho saltou sozinho na pequena área para cabecear a bola para o fundo das redes de Cejas.

Mais uma vez Escurinho fazia um gol de cabeça no final de um Grenal. A frustração da torcida foi imensa. Deixamos o estádio em silêncio, todos amassados por mais um revés que passava pela cabeça de Escurinho.

Portanto, era este o tamanho da encrenca que Oberdan chamara para si, quando, naquela tarde de abril de 1977 decretou que Escurinho não cabecearia mais na área do Grêmio. Ele fizera uma aposta arriscada. Se Escurinho fizesse um gol de

cabeça no Grêmio, Oberdan provavelmente estaria liquidado1. É possível que alguns repórteres provavelmente não tenham levado a promessa a sério. Devem ter pensado: “Coitado, ele não sabe quem é Escurinho”. Na verdade, eles é que não sabiam quem era Oberdan. E foi desta maneira que os gaúchos, inclusive as torcidas do Grêmio e do Inter, começaram a conhecer quem era Oberdan.2

Após a conquista do título, em entrevista concedida à Folha da Manhã e publicada na edição do dia 28 de setembro de 1977, à pág. 25, questionado sobre como o nome de Oberdan surgira, Nélson Olmedo respondeu:

“Eram duas horas da madrugada quando eu assistia o teipe do jogo Coritiba e Internacional, 1 x 0 para o Coritiba, gol de Oberdan Depois, assisti Grêmio e Coritiba, o resultado foi 1 x 1, gols de Alexandre Tubarão e Oberdan. Então comecei a pensar: se a gente pudesse contratar esse jogador, seria o máximo, nunca mais perderíamos Grenais nos últimos minutos, aos 44 ou 45 e até mesmo depois, com gols de Escurinho. Falei com o Telê Santana e ele concordou. Depois foi fácil contratar o jogador”.

Ao final do campeonato, como uma profecia que se autorrealiza, a promessa de Oberdan seria cumprida. Escurinho não cabecearia uma mísera bola na área do Grêmio. E o Grêmio seria campeão, recuperando a hegemonia do futebol gaúcho. A partir de então, a carreira de Escurinho entrou em declínio. No ano seguinte, saiu do Beira-Rio para jogar no Palmeiras, e depois peregrinou por Inter de Limeira, Coritiba, Bragantino e outros clubes de menor importância. Voltou ao Rio Grande do Sul para jogar no Caxias em 1984. Nunca mais jogou no Inter. E nunca mais cabeceou na área do Grêmio. Nunca mais.

Oberdan mora em Florianópolis, onde é proprietário da empresa Água Mineral Imperatriz.

1 Por uma dessas enormes coincidências da vida, que somente o “Sobrenatural de Almeida” é capaz de explicar, enquanto eu estava escrevendo este livro me encontrei com Oberdan, em Florianópolis, por puro acaso. Me apresentei como torcedor do Grêmio, e lhe disse que estava escrevendo um livro sobre o Gauchão de 1977. A frase sobre Escurinho surgiu naturalmente durante a conversa, e ele me disse que, antes dos Grenais, treinava cabeceios intensamente na forca. Para os mais jovens: a forca era um equipamento que tinha uma bola pendurada no alto; o atleta pulava e cabeçeava a bola quantas vezes aguentasse, ou quantas vezes achasse necessário. Calculo que Oberdan deveria cabecear umas mil vezes antes dos Grenais, para cumprir sua promessa. Discutimos sobre o que poderia acontecer se Escurinho fizesse um gol de cabeça em um Grenal. Um cenário possível era que, após o gol, ele pegasse a bola no fundo das redes de Corbo e a entregasse a Oberdan, dizendo: “Toma, é um presente daquele que tu disse que não cabecearia mais na área do Grêmio”. Felizmente, Oberdan não deixou que isso acontecesse. 2 Recentemente surgiu na Arena, especificamente no setor destinado à Geral do Grêmio, uma faixa, com a inscrição “Oberdan Imortal”. Alguém lá na Geral sabe quem foi Oberdan.

Escurinho faleceu em 27 de setembro de 2011, em Porto Alegre, aos 61 anos de idade.