Hiltor Mombach

Esta Seleção não meu deu nada. Nem alegria

Acordo no sábado e reclamo com a patroa Judith das minhas dores. O corpo todo doía. Custei a levantar da cama e meio que me arrastando fui até a cozinha passar um café.
Minha vontade era de retornar para baixo das cobertas e lá hibernar feito um urso. Quem sabe até dezembro. As dores vinham acompanhadas de uma melancolia profunda, aterradora. Temi por um ataque de pânico, que não veio. Desta vez a minha Síndrome do Pânico me poupou de acumular mais este padecimento.
A ficha demorou para cair. Eu estava sobrevivendo ao rescaldo da tragédia de sexta-feira. A eliminação do Brasil sobrecarregara meu corpo inclusive de dores físicas. Fora a cabeça inchada.
Foi aí que pensei no Chacrinha, no Chacrinha personagem de uma coluna de Nelson Rodrigues. Abria assim:
“Na confissão de sábado, chamava eu a atenção dos leitores para o salário profético do Chacrinha. O formidável animador ganha, por mês, 80 milhões; e pior: — no fim de um ano de contrato, passará a ganhar 100 milhões. Se um brasileiro consegue ganhar 80 ou 100 milhões por mês, este simples fato nada tem de simples ou de intranscendente....Na Índia, há milhões de sujeitos que nunca moraram, nunca tiveram um teto, uma mesa, uma cama. Nascem na rua, vivem na rua, amam na rua e morrem na rua. Sim, agonizam rente ao meio-fio, com a cara enfiada no ralo.”
Foi assaltado por uma dúvida: qual o tamanho da dor de um jogador eliminado? Vejam Paulinho, por exemplo. Mal a Seleção desabou na Rússia, fazendo desmoronar o sonho de milhões de brasileiros, ele recebeu a notícia de que estava deixando o Barcelona e retornando para o Guangzhou Evergrande recebendo o salário nababesco de R$ 14 milhões por cada um dos quatro anos de contrato.
Perdoem a pergunta pueril, este ataque de coitadismo, esta de mistura de coisas que não se misturam: como alguém pode sofrer sabendo que todo o mês estará depositada em sua conta uma pequena fortuna? Antes que alguém retruque, recorro a um ditado: “Dinheiro não traz felicidade? Então me dê o seu e seja feliz!”
O melhor a fazer é juntar meus cacos e seguir com a minha vida. Esta Seleção não meu deu nada. Nem alegria.