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Amigo Hiltor:
Paradoxalmente, o Brasil é o único país do mundo com campeonatos estaduais e que já foram atraentes e interessantes. Cultuamos isso porque temos quantidades de clubes tradicionais e, muitos deles, tradicionais e com grande massa de adeptos. Também, porque, nunca se organizou seriamente a nível nacional uma competição anual que abrangesse a todos eles de forma ampla e total. Finge-se que existe um calendário. As duas primeiras divisões do país - a "A" e a "B" - são discricionárias e elitistas. A terceira - a "C" - fica no mais ou menos. E a "D" é uma desgraça. A cada ano, assim que ela se encerra, a não ser os quatro promovidos, os outros 36 participantes são jogados na lata do lixo, sem a mínima garantia de continuidade, pois são excluídos e zerados, tendo que recomeçar a aspirar a uma vaguinha no ano seguinte, com os critérios mudando amiúde.
É inegável que os estaduais perderam o seu charme e o seu poder de cativar. A cada ano, menos público. São competições articuladas para "encher linguiça", isto é, fazendo de contas que preenche o tempo da maioria dos pequenos e com as federações forrando seus bolsos.
Senão, como entender que os maiores comecem seus compromissos com seus times de segundo escalão? Ou seja: desviaram e perderam o foco, numa demonstração que não estão nem aí. Só aguçam seus objetivos se as finais ou a Final for contra o grande rival.
Esse tipo de atitude vai, claramente, contra o próprio certame: não despertam a curiosidade dos torcedores e prejudicam as rendas tão esperadas, principalmente dos chamados "sazonais". E mais e pior: favorecem os adversários enquanto jogarem com escalações menos qualificadas, que podem ter pontos conquistados com mais facilidade, enquanto, em outros jogos se apresentam com sua formação-máxima, numa claríssima e injusta proporção. Esse é um fato medíocre e lamentável, para não dizer, "a banda podre" de tais campeonatos. De repente, a agremiação menos capaz conseguiu avançar na tabela e até reduzindo seus riscos de rebaixamento, em detrimento de quem realmente se esmerou em fazer o seu melhor.
A solução não é difícil. Bastam boa vontade, ideias lúcidas e estudos racionais. Ao se sepultar os "famigerados regionais", segundo tua coluna de hoje, com a qual concordo plenamente, alicerçada pelos dados por ti citados, todos, repito - todos - os clubes brasileiros poderiam constituir quatro grandes e completa séries. Em sua estrutrura e funcionalidade, com pequenas mudanças nas atuais três primeiras, a quarta - a "D" - enfeixaria todos os demais clubes e eles comporiam torneios classificatórios pelo sistema de regionalização até averiguar os que subiriam para a "C".
Nesse caso, todos teriam ocupação o ano inteiro e os trabalhadores de futebol assegurados com seus empregos e salários.
A Pré-Temporada ficaria para todo o mês de janeiro, tendo o mês de dezembro servido para as férias e todas as competições programadas para iniciarem em meados de fevereiro e serem finalizadas na última semana de novembro, Elementar, meu caro Hiltor!
Evidentemente, com tal estudo que já tenho pronto, criei intervalos para os demais torneios paralelos - Copa do Brasil, Libertadores e Sul-Americana, bem como estão previstas as datas-Fifa para a seleção nacional. Porque, sem tal previsão, os clubes, despojados dos jogadores convocados, perdem seus melhores valores m momentos cruciais e decisivos das competições, arriscando ao castigo da perda de pontos com seus times incompletos. Nestas datas todas, o Campeonato Brasileiro deve e precisa ser suspenso. E há tempo de sobra para levá-lo a bom termo durante a integralidade da temporada anual.
Por último: os cartolas não têm o mínimo interesse em parar para pensar e tentar modificar esse obsoleto e ridículo "status quo" dos regionais que já deram o que tinham que dar. Somos o país da cartolagem mais burra e tacanha do planeta! Mesmo assim, boçais prá xuxu! Não abrem as portas para dialogar e acham que está bem como está. E os clubes, que também são culpados, a cada ano se ferrando mais, empobrecendo com suas absurdas submissões.
Acho que vou "patentear" essa minha receita aí de cima, pois tenho certeza de que, de repente, o que as cúpulas federativas não aceitam e rejeitam, será plagiado como a redenção do futebol verde-amarelo. Aí, um desses profetas do templo exclamará: "Eureka! Eu descobri a água!"
Nada como abordar e debater um assunto tão sério e profundo nesta época de vacas magras do futebol brasileiro, mesmo com um Mundial à vista.