Hiltor Mombach

Fabrício e o fato "gravíssimo e inaceitável"

Este é um blogue democrático.
Escrevo aquilo que penso como registro opiniões contrárias.
Faz parte e é ótimo que seja assim.
Todos têm razão diante do que pensam.
"Como assíduo leitor do teu blog e da tua coluna no CP, tenho acompanhado teus textos e as colaborações de alguns dos teus numerosos leitores sobre o caso Fabrício.
Decidi me manifestar, por ser torcedor do Internacional e também para tentar contrapor uma ideia a meu ver equivocada que vejo estar se formando
É fato que as torcidas dos nossos clubes, não apenas a do Internacional, de vez em quando fazem mancada, cometem injustiças e frequentemente atrapalham os próprios times, por agir no impulso, no passionalismo que cega, quando o momento é delicado e mais se exigiria ponderação pra que as coisas não fiquem piores.
Ocorre que no universo futebolístico, onde todos lucram alguma coisas, o torcedor é o único que vai de coração aberto, só no amor, muitas vezes fazendo sacrifício para poder acompanhar o clube que ama.
A torcida, portanto, é a mais sagrada e inatacável das entidades – assim como os símbolos do clube, tão caros no imaginário do torcedor.
Portanto, considerando-se apenas o fato, gravíssimo, inaceitável, protagonizado pelo Fabrício, de abandonar o jogo pra insultar nossa torcida, jogar o Manto Sagrado no chão e dizer ‘Vou embora dessa m*’ – tudo devidamente destacado pela imprensa nacional e internacional! – a atitude já seria absolutamente indesculpável.
"Ah, mas a torcida pega no pé demasiadamente do sujeito e livra outros" ...
Não é bem assim.
He-Man e Jorge Henrique, só pra citar dois do atual grupo colorado, são tão visados quanto ele.
E mesmo que não houvesse esta marcação cerrada em outros atletas, já se justificaria a desafeição pelo seu Fabrício pelo simples fato de ele estar há quatro anos no Inter e neste período não se verificar absolutamente nenhuma evolução técnica, tática e, principalmente, como se viu no último jogo, psicológica do sujeito.
Em 2011, ele já tinha brigas públicas com o então treinador Dorival Júnior, as expulsões por arroubos irresponsáveis se avolumam, e o episódio último ultrapassou todos os limites.
Bom, mas aí chegamos à questão dos problemas pessoais.
Vários vêm dizendo, com muita propriedade, que todo mundo tá sujeito a ter seus ataques de fúria quando o momento é ruim, quando estamos sob enorme pressão, quando há problemas pessoais graves na jogada, envolvendo família – estou bem informado qual é o caso do Fabrício, e é bem sério mesmo –, a cabeça prestes a explodir, parece que está tudo contra nós, ninguém sabe como vai reagir. Ok.
Acontece que o seu Fabrício tem uma vantagem – não vou falar em privilégio, pois estar num grande clube e poder ganhar um bom salário logicamente envolve mérito – que outros trabalhadores não têm: ele está ligado a uma instituição que não só lhe oferece um salário inacessível à grande maioria dos trabalhadores brasileiros – não é inveja, nem ressentimento, só uma observação –, como condições de trabalho excepcionais, e possibilidade de ajuda profissional (psicólogos, assistentes sociais, etc.) sem custo algum pra ele, para que possa inclusive tratar de seus graves problemas pessoais.
Se não o faz, é por falta de coragem e humildade.
Fabrício deveria empreender todos os seus esforços para honrar a camisa que veste – e isso inclui respeitar o torcedor que se esforça em ajudar a pagar o seu salário, mesmo que as críticas lhe pareçam injustas – e lhe proporciona um padrão de vida bem acima dos reles mortais.
Também deveria aproveitar a chance que a vida lhe deu de não enveredar pelo crime, como seus irmãos, e segurá-la com unhas e dentes.
Portanto, se o presidente Vittorio Píffero, tão zeloso quanto a questões de disciplina na passagem anterior pelo clube, passar a mão na cabeça do Fabrício neste momento, estará, além de concordando com o achincalhe da instituição e do desrespeito ao seu mais caro patrimônio, que é o torcedor, atrapalhando o próprio Fabrício, que a cada ano que passa, tal qual guri desorientado, pede um limite e não recebe.
Finalizando, gostaria de contar uma historinha: conversando com o rapaz que trabalha para a empresa terceirizada que faz a segurança da escolinha do meu filho, hoje, ele se disse estarrecido com o surto do Fabrício. Contei a ele, então, os dramas familiares pelos quais o jogador tem passado.
"Ah, eu não sabia", comentou, pra depois emendar: "mas veja só o senhor: minha filhinha teve um tumor sério na cabeça, quando estava com quatro anos.
Hoje, ela tá bem, graças a Deus, mas na época aquilo nos derrubou em casa.
E eu trabalhava com segurança armada, sabe como é, sempre no limite ...
Não era nada fácil, eu saía de casa todo dia derrubado, mas a gente tem que fazer um esforço pra manter o equilíbrio, não misturar as coisas.
Nunca me perdi".
Acho que é desnecessário comparar as condições (financeiras, de trabalho, vantagens) que as empresas dos dois – Fabrício e o segurança – oferecem a cada um.
Abraço. João Fernando Cardoso