Hiltor Mombach

Felipão, o tigre e o sapo

elipão acordou culpado por não permitir que o Flamengo enfiasse uma goleada. Levasse 7 a 1 e seria elogiado. Patético!

Em uma das suas geniais crônicas Nelson Rodrigues escreveu: "O ser humano e o único que se falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até morrer, o seu mobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo como tal envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizar-se."
Meu assunto de hoje é Felipão. Felipão nasceu Felipão e seguirá sendo sempre Felipão. Felipão não se falsifica para parecer moderno. O Felipão antigo, quase juvenil, morador do hotel Garibaldi, dos meus pais, jogava para levantar taça. O de hoje, também.
O amigo deve ter percebido que escrevo sobre Flamengo 0 x 0 Athletico Paranaense pela Copa do Brasil.
Felipão está sendo atacado grosseiramente por ter montado um time retrancado. Felipão foi Felipão. Não iria se meter de pato a ganso diante de um Flamengo milionário num Maracanã lotado.
O que é o futebol? Um jogo, não? Num jogo, cada um usa as armas que possui. A arma de Felipão era empatar e levar o segundo jogo da decisão em aberto para o seu estádio. Conseguiu.
Felipão acordou culpado por não permitir que o Flamengo enfiasse uma goleada. Levasse 7 a 1 e seria elogiado. Patético!
Repito um texto cometido aqui vai tempo: “Verdade verdadeira é que o brasileiro jamais digeriu Felipão, flor de rusticidade. 
Para o torcedor brasileiro, Felipão está ultrapassado desde guri, dos tempos em que, zagueiro, desfilava um futebol ausente de qualquer refinamento no estádio Alcides Santarosa, na minha querida Garibaldi.” 
Os parnasianos não gostaram e meteram pau no tetra porque ali estava Dunga. Veio a Copa de 2002. Antes mesmo de desembarcar no Ásia, o gaúcho Felipão levava pau a torto e a direito por relegar Romário. Os amantes do futebol ofensivo continuaram sua ofensiva mas não convenceram Felipão a ser ofensivista.
O curioso é que, quando no Palmeiras multicampeão, Felipão era engrandecido quando volta e meia montava um time retrancado. O Brasil esqueceu que o glorioso Grêmio da década de 90 muitas vezes jogava conforme pedia o regulamento?
Felipão, amigos, é Felipão. Mais: Felipão não se pertence mais. Está num outro mundo, o mundo das lendas.