Flauta sadia se faz ao vivo, no máximo pela Internet
Pingue-pongue com Ilton Teitelbaum, Coordenador do Curso de Publicidade e Propaganda
FAMECOS/PUCRS
A publicidade é um novo meio de "flauta" entre as torcidas?
As peças publicitárias, por serem pagas e assinadas, são formas livres de expressão. No entanto, não chegaria a chamá-las de novo meio de “flauta” entre torcidas, pois torcidas usam outros meios para isso. O que tem acontecido, desde os tempos do ‘eles estão fora’ (1996) e do ‘aviãozinho’, é que diferentes direções têm usado meios próprios dos clubes (placares, sites de Internet) ou pagos pelos clubes (veiculações publicitárias) para dar vazão a mensagens desta natureza. Flauta sadia se faz ao vivo, no máximo pela Internet, entre amigos ou junto a grupos de referência. Dar ares oficiais a este tipo de mensagem é pouco adequado em termos mercadológicos.
- A imagem do Grêmio ou do Inter (como no anúncio de junho) pode ficar arranhada de alguma forma? O que um clube tem a ganhar e a perder publicando um anúncio, digamos polêmico, sobre o rival?
O arranhão na imagem não me parece que seja do Clube ou da agremiação. Talvez seja mais na imagem da direção que momentaneamente está no poder. Normalmente, o marketing tem nos ensinado que guerrilha é tática de quem está em desvantagem. Deste modo, o que se pode ganhar com uma peça desta natureza é um pouco de alento aos torcedores, a percepção de que a entidade ainda está em cena e a sensação de que a mesma está reagindo (o que não parece condizer com alguém que sai da cidade para não ver o que está acontecendo). Pode-se ganhar alguns minutos de pausa para pensar, de vez que produz certo burburinho com o estímulo de comunicação que gerou. Se os ganhos são ralos, as perdas tampouco são expressivas: é provável (e recomendável) que não haja reação do concorrente e que anúncio fique para trás, enquanto os motivos que devem tê-lo brifado (e que formam a nossa velha gangorra) seguirão ocupando espaços impressos e eletrônicos. Enfim, esta é uma polêmica que deve esfriar em muito pouco tempo. Algo como a velha piada do feio e do bêbado: amanhã, o bêbado estará sóbrio; o feio, por sua vez, não terá mudado de condição.
- O anúncio pode ser visto como uma forma de dar destaque ao assunto, já que está sendo bastante comentado via twitter e outras redes sociais?
O anúncio, como eu disse antes, tenta dar ares institucionais à molecagem sadia da flauta entre torcedores. E aí está seu erro: a molecagem é sadia quando dita entre amigos ou teclada entre conhecidos e/ou parceiros do mundo digital. Mas, quando vira palavra oficial, parece despeito. É algo como se a direção colorada dos anos 80, período de muitas derrotas vermelhas, publicasse um anúncio dizendo que saudava a iniciativa do co-irmão em reformar seu estádio, pois assim Porto Alegre voltaria a ter duas praças de esporte que não balançam. O torcedor colorado acharia engraçado por alguns instantes, mas seguiria sonhando com títulos e com a volta das glórias com as quais se acostumara nos anos 70. Futebol é um negócio no qual o torcedor exige consumir um produto chamado resultados. Se este produto estiver em falta nas prateleiras, a relação entre oferta (clube) e procura (torcedor) sofrerá um abalo igual ao que surgiria em qualquer outra situação de mercado: desgosto e insatisfação no lado do cliente, pois não há propaganda que salve um mau produto. Enfim, a peça pode até ser engraçadinha, mas não vai surtir qualquer efeito positivo no caixa de quem tenta vender a mercadoria.
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