Hiltor Mombach

Futebol, política e religião

Qualquer debate que envolva futebol, política ou religião acaba inevitavelmente em discussão das brabas.
A Copa do Mundo no Brasil envolve futebol, obviamente.
E é a Copa do Partido dos Trabalhadores, do PT de Lula e Dilma.
E, se Deus é brasileiro, desta vez o papa é argentino.
O PT não inova ao usar o futebol como arma de campanha, de promoção partidária.
O futebol já esteve a serviço da ditadura. Lembram do slogan “onde a Arena vai mal, mais um no nacional?”.
A Copa é uma porta aberta para a roubalheira?
Respondo com outra pergunta: não vem sendo assim desde que o Brasil era colônia de Portugal?
Se serve como consolo, em eventos assim a imprensa torna-se mais vigilante.
Os escândalos pipocam aqui e ali. Alguém dirá que as denúncias darão em nada.
E quando deram?
Bem, neste caso o desdobramento quase sempre acabou em pizza.
A Copa é um negócio, não vem para salvar a vida nem a situação financeira dos brasileiros.
Um grande negócio como qualquer outro grande negócio, como a Olimpíada.
O Brasil não acordará melhor nem pior, mais rico ou mais pobre.
Teremos estádios e obras superfaturadas. Alguma novidade?
Gasto excessivo de dinheiro público, redução de verbas destinadas a saúde, redução de verbas destinadas a educação, corrupção. turismo sexual...O Brasil irá conviver com algo novo durante a Copa ou os ítens citados acima são nossos conhecidos desde que nascemos?
A Fifa não trará nenhum problema novo para o país, talvez torne mais latentes os de sempre.
Levará seus bilhões de dólares e adeus tia Chica.
Na prática, é isto, ou, como diria o filósofo Perondi, “está é que é a verdade, esta é que é a realidade”.
Talvez o grande legado desta Copa sejam os indicativos de que, finalmente, o brasileiro acordou.
Alguém retrucará dizendo que o país vem acordando desde a campanha das Diretas Já.
Em Porto Alegre, há os quem não irão torcer pela Seleção Canarinho nesta Copa porque a cidade está transformada em um gigantesco canteiro de obras.
Hoje, Fortunati cabe num ditado: “Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come”.
Não manda fazer, é inoperante; manda fazer, também.
Ou porque o Inter não resolveu a questão do entulho ou porque a Fifa deveria ter escolhido a Arena.
E não faltam os que torcerão contra porque as manifestações vêm tumultuando o dia a dia.
O futebol tem lá suas nuanças.
Desconheço um gremista ou um colorado que perderam a paixão clubística por má gestão deste ou daquele dirigente, porque o clube entrou numa fria com um parceiro ou porque a cidade está de pernas para o ar.
Mas com a Seleção, as coisas são diferentes.
Quando me perguntam se eu vou torcer pelo Brasil respondo que sim.
Porque não consigo torcer pela Argentina, por exemplo.
Para torcer pelo Brasil não preciso vestir a camiseta do ufanismo (Brasil, ame-o o deixe-o) nem cantar o refrão “prá frente Brasil, salve a Seleção”.
Nem ser a favor ou contra o PT.
Posso torcer e continuar contra a corrupção, o superfaturamento, contra o indignante investimento na educação e na saúde...
Ou seja, não preciso me violentar.
Vou torcer pelo Brasil sem nenhuma esperança de ver a minha situação melhorar em caso de título.
Nem piorar.
No arremate, pergunto: quem tem faturado mais politicamente com Copa até aqui, a direita ou a esquerda?
Pensem nisto, enquanto eu, repetindo Sergio Jockymann, lhes digo até amanhã.