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O folclore do jeitinho estava definitivamente impregnado no caráter nacional antes mesmo do comercial de cigarro onde Gerson lasca sua frase mais famosa. “Você gosta de levar vantagem em tudo, certo?” O jargão de um herói nacional e tricampeão mundial apenas consagrou a praga. Viramos o país do jeitinho. Antes um tanto inocente, o jeitinho vem evoluindo. Hoje, cabe na letra de um tango de Carlos Gardel, Cambalache: “Século 20 “cambalache”, problemático e febril/ O que não chora não mama/ Quem não rouba é um imbecil...” Damião tentou aplicar a lei de Gerson. Parou no juiz. Gol do juiz. Para rescindir com o Santos, o atacante anexou uma declaração de pobreza ao processo. Comparado ao pessoal do Lava-Jato, é paupérrimo; já ao assalariado, é um nanabo com sua receita de R$ 650 mil a cada 30 dias. Um assalariado precisa trabalhar dez meses para ganhar 10% do que Damião ganha num mês. Os clubes pagam fortunas porque sempre dão um jeitinho de não pagar impostos e o governo dá um jeitinho de perdoar a dívida. Já com o senhor a senhora não há jeitinho. Votamos em políticos que nos prometem uma coisa e nos entregam um saco de maldades. É o jeitinho de sugar o pouco que nos sobrou. O juiz Ítalo Menezes de Castro marcou um golaço no seu despacho: “Ao requerer a gratuidade da Justiça, sendo remunerado com vultosas quantias, o atleta chega a pretender ofender a dignidade e a envergadura da Justiça do Trabalho, intentando “pedalar” e “driblar” a seriedade com que o direito é aplicado por essa especializada”. Parabéns, senhor Ítalo Menezes de Castro. De acordo com os representantes de Leandro Damião, a declaração de pobreza é uma praxe no âmbito trabalhista. Ôps! Praxe de quem? Voltamos ao tango de Gardel: “Vivemos atolados na lameira/ E no mesmo lodo todos manuseados/ Hoje em dia dá no mesmo ser direito que traidor/ Ignorante, sábio, besta, pretensioso, afanador”.