A versão é o melhor do que o fato.
Uma frase de Nelson Rodrigues escancara a natureza do ser humano:
“Pode parecer uma verdade exagerada, violentada, mas eu diria o seguinte: no Brasil, a glória está mais no insulto do que no elogio.
Se não me entendem, paciência.
Mas ouçam uma boa e honrada conversa de brasileiros com brasileiros. Reparem como nós cochichamos o ditirambo e berramos o ultraje.
Por coincidência, só ultrajamos os melhores.”
Amamos teorias conspiracionistas.
Escândalos, então, são um prato cheio.
Em 1998, bombou nas redes sociais o boato, rico em detalhes, de que o Brasil vendeu a Copa do Mundo para a Fifa. O autor do besteirol desconhecia o mundo do futebol.
Cada jogador receberia 70 mil dólares pela maracutaia.
Muitos daquela Seleção nem passariam o pires por 70 mil dólares.
Estamos na Arena, no vestiário do Grêmio.
Eis que, de repente, Renato quebra o silêncio:
“Rapaziada, vamos entregar o jogo para o Sport para prejudicar o Internacional”.
Imagino a palidez tomando conta do rosto do bom rapaz Grohe.
Diante de uma plateia estupefata, o treinador prossegue:
“Hoje eu quero a antiepopéia, a negação do futebol, a mortalidade Tricolor”.
Nesta hora Preis desaba, pernas bambas.
No fervor do convencimento, Renato declara:
“É isto. Entreguem o jogo e fim.”
Quem liga para o fato?
Romildo Bolzan falou para as moscas quando afirmou que o time teve um “relaxamento involuntário” contra o Sport.
Os 3 a 0 já estavam inscritos como mais uma das lendas urbanas que povoam a grenalização.
Goleada do conspiracionismo.
Quem liga para o fato se só a versão revolve o imaginário, escancara a natureza do ser humano?
