POR LUCIANO PATUSSI*
"Passados os nervos, as polêmicas, as brigas e a definição do classificado nas quartas de final da Copa do Brasil, Grêmio e Inter viram a chave para a dura realidade do Brasileirão. ais do que comemorar ou digerir o resultado do clássico, os clubes precisam iniciar o debate urgente que definirá sua reinserção enquanto protagonistas de elite no futebol nacional e internacional.
A elite do futebol gaúcho atravessa uma crise técnica, financeira e institucional sem precedentes.
Ver Grêmio e Internacional figurando juntos na metade de baixo do Campeonato Brasileiro não é mero azar de percurso, mas o reflexo de um problema muito maior: a incapacidade dos dois gigantes de se adaptarem às profundas transformações do futebol moderno.
Por trás da oscilação dentro de campo, esconde-se uma fragilidade de gestão que empurra os clubes para uma perigosa dependência de "milagres" para se manterem competitivos e solventes.
DEBATE RASO
O debate em torno dessa derrocada ainda é raso. Torcida, imprensa e dirigentes costumam focar apenas no resultado do último jogo — culpando a arbitragem (com ou sem razão), brigando por lances isolados ou pedindo a cabeça do treinador —, ignorando que o problema maior está (e sempre esteve) na conta que não fecha.
Enquanto as dívidas aumentam e são empurradas para debaixo do tapete a cada mudança de mandato, Grêmio e Inter parecem agonizar à espera de uma salvação mágica — que muitos acreditam ser a transformação em SAF.
No entanto, essa virada não virá por encanto, mas sim por uma reforma estatutária séria, governança de fato e profissionalização da gestão, independentemente do modelo a ser adotado.
A HITÓRIA É DIFERENTE
O modelo social tradicional, nascido com as agremiações esportivas, é oriundo do início do século passado.
Ainda hoje, vende a ideia de que os clubes pertencem aos seus associados quando, na prática, a história é bem diferente: quem aprende a dominar os bastidores políticos e o modus operandi das instituições e de seus conselhos deliberativos toma conta do poder e dita os rumos dos times.
Esse coronelismo político enfraquece o planejamento esportivo, gera contratações equivocadas e perpetua vícios de gestão — uma realidade que não se restringe ao Rio Grande do Sul, mas que cobra um preço alto demais da dupla Gre-Nal. Contudo, o debate em torno disso ainda é raso.
O reflexo desse cenário ficou evidente nos recentes confrontos pelas quartas de final da Copa do Brasil de 2026.
Nos dias em que antecederam os jogos, vimos um verdadeiro "festival do medo", marcado por polêmicas, confrontos e o receio crônico de perder e entrar num poço sem fundo.
Com o clássico já passado e o vencedor comemorando, os problemas estruturais de ambos continuam rigorosamente os mesmos: zona de rebaixamento espreitando, cofres tensionados e a bola de neve crescendo.
Se Grêmio e Inter não modernizarem suas estruturas e seus conceitos políticos urgentemente, correrão o risco de ver sua relevância nacional minguar, tornando o topo da tabela do Brasileirão um objetivo cada vez mais distante.
Títulos relevantes até poderão acontecer — fruto de uma campanha fora da curva ou de uma arrancada inspirada em torneios de mata-mata que termine em taça. Contudo, vitórias pontuais ou triunfos em clássicos apenas mascaram a ferida.
Sem uma evolução profunda nos conceitos de gestão, governança e política apresentados aqui, a dupla Gre-Nal dificilmente conseguirá sustentar uma sequência em alto nível, condenando-se a viver de lampejos esporádicos em vez de um protagonismo sólido e duradouro — uma realidade dura para a tradição de ambos os clubes, acostumados a eras de ouro e hegemonias inesquecíveis.
*Texto publicado originalmente em 01º de setembro de 2026 em futebolartegarra.blogspot.com e conteúdo atualizado após o clássico visando republicação.
Grêmio, Inter a crise e o coronelismo político
“Esse coronelismo político enfraquece o planejamento esportivo, gera contratações equivocadas e perpetua vícios de gestão...”
