Hiltor Mombach

Há um Brasil que torce e um que seca o Brasil

Há uma nação chumbada às questões políticas e outra que vê o futebol como futebol

Foto : ODD ANDERSEN / AFP

Há um Brasil que torce pelo Brasil e um outro Brasil, aquele que seca o Brasil.
Estou falando da Seleção.
É assim agora, na Copa do Catar, como foi em 1970, no México.

Cometendo uma verdade exagerada diria que tal divisão se arrasta desde 1930, no Uruguai.
Há uma nação chumbada às questões políticas e outra que vê o futebol como futebol.

Cutucado por ser apolítico, Pelé admitiu que sabia de coisas ruins que aconteciam no país quando da conquista do tri, mas que sua forma de ajudar a nação era mesmo ganhando Copa para dar alegria ao povo. 
Não me atrevo a julgar. A democracia é uma porta aberta para opções.

Pessoalmente, não consigo torcer contra o Brasil quando o assunto é Copa do Mundo.
Tempo de Copa, para mim, é tempo de ufanismo.
Sou verde-amarelo da cabeça aos pés.

O assunto me remete a um trecho de uma crônica do brilhante Nelson Rodrigues.
Está em "A pátria de chuteiras".

"Por isso, eu vos disse que o indiferente dá, de si mesmo, do próprio caráter, uma tristíssima ideia. Indiferentes, por quê, se vai definir, dentro de 24 horas, o destino do escrete?

Os lorpas, os pascácios poderão objetar que se trata de futebol, apenas o futebol. Não é só o futebol. É, sobretudo, o homem brasileiro. Os nossos craques estão ganhando no Chile com as qualidades de coragem, inteligência, imaginação, entusiasmo, gênio do homem brasileiro.

Eis por que a batalha do escrete implica toda a nação. Até os xavantes, que põem em cima da nudez aquele casto cinto de barbante, até o xavante, dizia eu, está pessoalmente interessado no bi. Em 50, não foi apenas um time que fracassou no Maracanã. Foi o homem brasileiro, como em Canudos. Em 58, quem venceu? O Brasil. Quando Bellini apanhou o caneco de ouro, era o novo homem brasileiro que se proclamava.

Assim será amanhã, em Santiago. Em outro tempo, a luta seria mais dura e mais problemática. O homem do Brasil ainda não tinha amadurecido. Nas grandes partidas internacionais, ele entrava em campo arrasado emocionalmente. Perdia antes da derrota. Mas 58 nos libertou de todas as nossas frustrações. Os negros, os mulatos, os brancos do país surgiram numa plenitude até então desconhecida".