Hiltor Mombach

Havia uma bomba

""Senhores e senhoras, vamos fazer um pouso de emergência em um aeroporto militar da cidade de Sant Marie..."

POR ELTON JAEGER* 

Acabara de realizar a cobertura do GP de Fórmula 1 em Toronto, no Canadá. Estava de folga no dia seguinte, quando na companhia dos pilotos Émerson Fitipaldi e José Carlos Pace (o Moco) visitei as caratas de Niagara Falls. Ao retornar para o hotel, um dos dirigentes da equipe Shadow convidou Moco para participar de uma etapa da CANAN, certame Norte Americano/Canadense de protótipos. Moco aceitou o convite e o estendeu para mim.
Na oportunidade consultei a direção da Caldas Júnior se poderia me deslocar até o local da competição, o qual não estava nos planos pré-estabelecidos Haveria despesas adicionais, como passagem. Fui autorizado para acompanhar o Moco pelo então chefe de redação da Folha da Tarde, Edmundo Froes Soares.
Tomamos um voo da Air Canadá, em Toronto com destino à Edmonton, bem ao norte do Canadá. Seria um deslocamento direto de 3h30min.
 Decolamos de Toronto  às 19h30min. Com 1h30min de voo, as comissárias começaram a servir o jantar, mas em  seguida passaram a recolher tudo. Eu, o Moco e sua esposa estávamos nas  últimas filas de poltronas do avião. Era um Boeing chamado de Trijato. Aquele modelo com três turbinas e uma escada na parte de trás.
O começo do drama
A noite estava linda, céu estrelado e pouquíssimas nuvens. Notamos que o avião estava baixando e já se via luzes de uma pequena cidade, quando o comandante do avião informou os passageiros pelo alto falante:
"Senhores e senhoras, vamos fazer um pouso de emergência em um aeroporto militar da cidade de Sant Marie e pedimos a todos  que após o pouso se afastem pelo menos 300 metros da aeronave, o mais rápido possível, pois estamos com uma BOMBA A BORDO"
Houve pânico e muita gritaria entre os 98 passageiros.
O avião parou e descemos imediatamente pela escada traseira.
Fazia muito frio. Corremos pela escuridão para um lado, quando a pista acabou.  Continuamos nos afastando da aeronave, mas já correndo por um banhado, onde a esposa do Moco caiu,  se molhou e perdeu um sapato.
Também já se via luzes de carros da polícia e bombeiros vindo em nossa direção, que começaram a recolher os "apavorados " passageiros. Fomos para num grande saguão, de onde, e de muito longe, se via a movimentação dos bombeiros na tentativa de localizar a bomba.
Permanecemos umas duas horas no saguão, onde nos serviram um lanche, até que em determinado momento apareceu o comandante e, através de um alto falante portátil e tremendo muito, anunciou que a tal bomba não fora encontrada após completa revista na aeronave. Sob os olhares atentos dos passageiros, anunciou que a viagem seguiria no mesmo avião.
Embarcamos desconfiados, mas tudo correu muito bem até o pouso em Edmonton.
Essa cidade canadense fica bem próxima da divisa com o Alasca. Desembarcamos por volta das duas horas da madrugada. Tinhamos reservado um automóvel em locadora local. No balcão da empresa encontramos a atendente dormindo. Despertada, a moça nos levou até o pátio, onde estava o enorme Doge Monaco completamente coberto de gelo. Em seguida entramos naquela geladeira (fazia no momento 16 graus abaixo de zero) e seguimos para o hotel.
No dia seguinte,  por volta das 8h, seguimos para o autódromo de Edmonton, onde foi realizado  o  primeiro treino para a prova do domingo. Ao voltarmos e ao chegarmos no hotel, o veterano e bricalhão, o piloto neozelandês Denny  Hulme, gritou para o Moco: "Então , viajando com bomba a bordo! O Moco logo respondeu: "Não, não havia nada. Aos que Hulme retrucou: "Então leia este jornal"
Havia uma bomba, mas ela foi encontrada e desarmada pelos bombeiros.
A explosão aconteceria em 1h52min. A mesma foi despachada por um grupo de  terrorista do Canadá. Desta eu escapei ileso...com a graça de Deus.

*Elton trabalhou na Folha da Tarde onde durante anos realizou coberturas de automobilismo. 
Fomos companheiros de redação.