HISTÓRIAS. AGORA, A DA CARNE DE CACHORRO
Contei a do Mercado das Sedas. Vamos a outra história, uma das tantas destas andanças por este mundão. Estava indo para Coréia do Sul cobrir a Copa de 2002 e escrevi a seguinte coluna.
"Estou aí para desbravar a Coréia do Sul, palco da Copa Mundo, e ainda não escrevi uma linha sequer sobre meus tormentos. Há bufê de cachorro? Se você imagina que um bom rodízio deva incluir do poodle ao são-bernardo, errou: só servem carne de vira-lata. Tadinhos! Na Coréia ninguém mata cachorro a grito: são abatidos em frigoríficos. Há, em junho, o Dia do Cachorro: quem comer carne nesta data estará protegido de doenças por um ano. Falam maravilhas de uma sopa de carne de cachorro. O problema é você comer pensando no seu estimado cãozinho. Juram que embrulha o estômago. Mais do que comer barata crocante? Não, acho que não."
Obviamente eu, cidadão viajado, conhecedor dos atalhos, não iria embarcar em canoa furada. Era o que eu pensava, embora meu histórico seja de embarcar em navios furados.
Não lembro da cidade coreana. Desembarcamos pela noite. Dei um giro na quadra do hotel em busca de um restaurante.Nada. Tudo fechado. A barriga roncando, eu esfomeado...Dormir assim, impossível. Ôpa! Havia uma bodega aberta. Entrei. Havia comida. Um garçom desdentado e sujo veio com o cardápio. Ler, não dava. Fui pelas figurinhas. Havia algo que se parecia com massa e, ao lado, um bifão. Bifão de que, pouco importa. Falar coreano eu não falava e quem falava mais alto era a fome. Apontei para a figura. É a linguagem do dedômetro. Universal. Quase lati para saber se era de cachorro a carne, mas iriam me internar. Veio a comida. A massa era gelada. Como comer aquilo?
Na mesa ao lado, observei que eles pegavam a massa com aqueles pauzinhos irritantes e davam um banho de imersão numa cumbuca. Ôpa! Lá vinha o garçom com minha cumbuca. Água quente, pensei. Não. Gelada. Levei quase uma hora explicando que eu queria massa quente. Quando ele entendeu, o bife estava gelado. O negócio era partir para os finalmentes: comer. Comi. Gostei da carne. Sabor de carne de porco. Que maravilha! Morta a fome, pedi a conta. Dedômetro outra vez: esfreguei o dedão no indicador. O coreano não entendeu. Pedi a conta em inglês, italiano, espanhol, português, portunhol, espainglês....Nada. Ah! Havia um método infalível. Fui saindo do bar. Aí, ele entendeu. Que eu não poderia sair sem pagar. Quanto? Onde estava o preço? No cardápio não estava. Foi quando ele apontou para um foto na parede. Reconheci. Lá estava o prato que eu não apenas pedira, como comera. Não o prato, o que estava no prato. Com o preço. Com um cachorro ao lado do bife.
