Hiltor Mombach

INGRESSOS, AINDA

INGRESSOS, AINDA

Prezado Hiltor,
Transcreveste em teu blog do dia 06/05/2010 coluna anterior sobre o preço dos ingressos praticados atualmente nos estádios de futebol, especialmente no Beira-Rio, em resposta ao excelente texto do leitor Allan Maciel Silva da Silva.
Falaste em demagogia e finalizaste com a seguinte frase: “Bom futebol é artigo de luxo, e luxo custa muita grana.”
O Allan Maciel tem inteira razão no que diz. Os preços dos ingressos no Beira-Rio, estádio do Clube do Povo, aumentaram absurdamente a partir de 01/01/2007. Sobre isso, veja a tabela que consta na página 44 do trabalho de conclusão da historiadora Delene de Souza Gastal (disponível em http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/21333/000736986.pdf?sequence=0).
Entretanto, a qualidade dos times montados pela atual gestão que comanda o Inter há 9 anos diminuiu na proporção inversa. Em 2007 o Inter foi eliminado na 1ª fase tanto do gauchão como da libertadores, e em 2008 e 2009 o Inter não disputou a libertadores, por exemplo.Como explicar aumento de mensalidades, de ingressos, de produtos licenciados, etc., sendo que o time em campo não corresponde a esse achaque? (Leia mais em http://interdetodos.blogspot.com/2010/05/tradicao-x-modernizacao.html)
Mais: as modificações no estádio, até agora, foram pequenas para se justificar a elitização por que o Clube está passando. Foram colocadas cadeiras apertadas na social e na arquibancada superior. E só. Na arquibancada inferior continua se sentando no concreto, tomando chuva no lombo e vendo o jogo de pé quando há superlotação. E tudo isso por R$ 40,00. Se isso é luxo...
(Leia mais em http://interdetodos.blogspot.com/2010/05/modernizacao-cade.html)
O local mais popular do estádio, a antiga “coréia”, foi fechada. Estão sendo construídas 89 suítes no anel inferior. Temos, segundo a atual gestão, mais de cem mil sócios. A capacidade do Beira-Rio, segundo dados oficiais, é de 56 mil espectadores. Ora, obviamente não há lugar para todos (e esse é um problema sério e de difícil solução). Como entender então que diminuam a capacidade do estádio, justamente no setor onde o ingresso é mais “barato”, quando o número de sócios aumenta?
Não é à toa que a média de público do Inter em jogos não decisivos seja tão baixa. E, agora, no brasileirão isto ficará mais uma vez evidente (a menos que ocorram mudanças sensíveis dentro e fora de campo).
Permita-me voltar ao ano de 1999. O então presidente Paulo Rogério Amoretty iniciou um campanha de sócios muito interessante: pagava-se R$ 20,00 mensais à época e era possível assistir a todos os jogos do Inter no Beira-Rio durante o mês SEM pagar ingresso nem metade do ingresso. O número de sócios aumentou consideravelmente. Isso permitiu a permanência do Christian e a contratação de medalhões como Dunga, Gonçalves, Elivélton e do técnico Paulo Autuori. Todos com altíssimos salários. No campo, porém, o time levou 4x0 do Juventude dentro do Beira-Rio, sendo eliminado antes da final da Copa do Brasil e, no brasileiro, quase foi rebaixado.
Ou seja, o torcedor-sócio tinha acesso a todos os jogos do time por menos da metade do que se paga hoje e o Clube tinha uma capacidade de investimento muito boa. Esse projeto só não foi adiante porque em campo as coisas não aconteceram.
Em 2006, o ingresso era muito mais barato e acessível do que é hoje e o time era infinitamente melhor, assim como a folha de pagamento. O que prova que dinheiro e “luxo” não são garantias de equipes competitivas e muito menos de títulos! O Chelsea, por exemplo, é riquíssimo, tem um time caríssimo, mas nunca ganhou uma champions league. Isso é incompetência administrativa e política de futebol equivocada.
Onde quero chegar: é possível montar bons times, vencedores, sem precisar achacar tanto o torcedor. Também é possível ter segurança e conforto no estádio (o que não é o caso do Beira-Rio atual, pelo menos não em determinados setores) sem elevar o custo dos ingressos muito além do padrão salarial do cidadão-torcedor. A própria gestão atual sabe disso e sabe como fazer isso. Basta vontade política!
Atualmente, apesar de contribuir com o Inter, os sócios de uma determinada modalidade não têm nenhuma garantia de que poderão adquirir ingressos para assistir aos jogos no Beira-Rio. Bom futebol então...
Não queremos entrar de graça no estádio. Queremos apenas que o valor de ingressos, museu, produtos licenciados, comidas, bebidas, sejam compatíveis com o poder aquisitivo de todos, e não apenas de meia dúzia. É preciso achar uma alternativa! É possível ter desenvolvimento com distribuição de renda. Quem tem mais, que pague mais. E que se cobre menos de quem tem menos. É uma equação simples e bastante plausível, sim senhor.
E os estudantes e idosos, como ficam? E o torcedor que, além da mensalidade, paga o pay-per-view para poder acompanhar o Inter longe do Beira-Rio? É uma despesa surreal para os nossos padrões (que não podem ser comparados aos europeus).
Muitos dos que estão sendo excluídos do processo, na época das vacas magras, nos anos 80 e 90, estavam lá sujeitos a chuvas e trovoadas para apoiar o time, o Clube (éramos aproximadamente 10 mil em média). Os locatários de cadeiras, suítes e camarotes, onde estavam? (Leia mais em http://interdetodos.blogspot.com/2010/04/recebemos-um-comentario-anonimo-de.html)
Saudações coloradas,
Douglas Ricalde
http://interdetodos.blogspot.com/
Autorizo a publicação.