Hiltor Mombach

Inter, AG: os bastidores da negociação

Eram 16h de sexta-feira quando o presidente do Internacional, Giovanni
Luigi, começou a disparar telefonemas. Estava angustiado com a demora da
Andrade Gutierrez em assinar o contrato para reforma do estádio Beira-Rio,
escolhido pela Fifa para ser sede de jogos da Copa do Mundo em 2014, e não
queria viajar para La Paz, na Bolívia, na segunda-feira, onde o Inter
enfrentará o The Strongest na quarta-feira pela Libertadores, sem resolver
a questão. Não estava disposto a arrastar o problema até quinta-feira, dia
do retorno.
Às 17h Luigi estava reunido no Beira-Rio com Cássio de Jesus Trogildo,
Diana Raquel de Oliveira, João Patrício Centeno Hermann, José Aquino
Flores de Camargo, José Carlos Granja de Andrade, Pedro Paulo Salvadori
Zachia e Ronaldo Marcelio Bolognesi, todos integrantes da Comissão de
Obras.
Quase cinco horas depois um Luigi visivelmente aliviado concedia
entrevista coletiva para anunciar: "Segunda-feira, às 11h da manhã, será a
assinatura do contrato com a Andrade Gutierrez no salão do Conselho
Deliberativo. Faremos um convite formal por meio desta presidência aos
conselheiros colorados. Já avisei o prefeito e o governador. Conversei com
a construtora para estar presente na assinatura de contrato, deixando tudo
garantido. Combinamos a retirada da cláusula dos 120 dias que permitia
que eles saíssem da parceria, pois não haveria um porquê pelo atraso que
já temos."
Era mais um capítulo de uma novela que começou em dezembro de 2011, quando
após longa discussão e da análise da minuta do contrato, o Conselho
Deliberativo aprovou a parceria com Andrade Gutierrez, com 229 votos
favoráveis e 47 contrários.
Novela que teve de tudo, até "conspiração" para tirar a Copa do Beira-Rio,
levando os jogos para a Arena do Grêmio, e que reservou as maiores emoções
para os últimos capítulos. este blogueiro conta hoje, com
exclusividade, os bastidores da negociação.


Pressão por plano B

Enquanto aguardava pela assinatura da Andrade Gutierrez, o Inter recebeu
uma proposta de reforma do Beira-Rio de um grupo formado por quatro
empresas do Rio Grande do Sul. Pela proposta, o grupo exploraria obras que
seriam construídas no entorno do Beira-Rio por 20 anos, entregando depois
para o clube, e, segundo influente conselheiro colorado, as negociações
com a prefeitura de Porto Alegre e com o Banrisul estariam adiantadas. A
proposta chegou a ser avaliada pelo Inter como plano B, que cogitou até a
última sexta-feira em trocar de construtora. Especula-se que a entrada de
um concorrente possa ter sido decisiva na mudança de postura da Andrade
Gutierrez. Luigi nega ter recebido tal proposta, como nega que, caso
tivesse fracassado a negociação com a Andrade Gutierrez, ele anunciaria
ainda na sexta-feira o plano B, alternativa que teria que ser submetida ao
Conselho Deliberativo.
Paralelamente, até a última sexta-feira alguns integrantes do movimento
que pretendia realizar a reforma com dinheiro da própria instituição,
torciam para que Inter e Andrade Gutierrez rompessem, alimentando a esperança
de que Luigi recuasse e, pressionado, aceitasse o modelo antigo.
Logo após a reunião de sexta-feira, um dos integrantes da Comissão de
Obras ouvido pelo Correio do Povo sobre se a Andrade Gutierrez iria
recorrer ao Banrisul como banco repassador do empréstimo que deve ser solicitado ao BNDEs, disparou: "Tá louco. Eles (construtora e Banrisul)
quebraram os pratos. Foi coisa muita feia". Deve-se lembrar que no dia 25 de
fevereiro a Andrade Gutierrez divulgou nota oficial nos jornais dizendo
que o Banrisul não concordara em repassar o financiamento do BNDES,
responsabilizando o banco pelo atraso na assinatura. O Banrisul retrucou e
até o governador do Estado, Tarso Genro, bateu na construtora ao saber, na
quarta-feira, que a Andrade Gutierrez não havia dado prazo para assinar o
contrato. "A nossa relação com a Andrade Gutierrez está esgotada."


Constrangimento

Um dos capítulos mais constrangedores da novela ficou reservado para uma
reunião na qual se tentou de todas as formas levar a Copa do Mundo para a
Arena do Grêmio. Luigi foi pressionado a abrir mão de ter jogos no Beira-Rio e um
dos presentes, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, surpreso com os
acontecimentos, teria confidenciado a um dos convidados: "Gaúcho, você viu
o que estão tentando fazer aqui?" O prefeito José Fortunati teria feito um
discurso veemente em favor da Copa do Beira-Rio para estupefação do
presidente do Grêmio, Paulo Odone, que talvez imaginasse que Fortunati,
por ser gremista, apoiaria a ideia da mudança.
Nas primeiras horas deste sábado, Luigi disse a um amigo: "Hoje vou
dormir sossegado". Com razão. O presidente do Inter sai como um dos
grandes herois desta novela que, nesta segunda-feira, às 11h, terá mais um capítulo
importante, com a assinatura do contrato. Finalmente.