A dívida do Inter vem sendo passada de gestão para gestão desde a fundação do clube.
Está no DNA da instituição.
Alguns dirigentes foram mais realistas.
Outros mais sonhadores.
Pedro Paulo Záchia tirava dinheiro do bolso volta e meia para pagar compromissos.
Se eu tivesse que escolher a melhor gestão na área financeira apontaria Giovanni Luigi.
Maliciosamente rotulado de "gerente da Rodoviária" conduziu o clube com mão de ferro.
Comandou a reforma do Beira-Rio e até hoje não se ouviu falar em problema algum com bancos, credores, construtora....
Escrevi vai algum tempo que no pântano abrigado pelo nosso íntimo escondem-se sentimentos inconfessáveis.
Há entre os dirigentes noviços um desejo absurdo de redescobrir a roda.
Esta misteriosa ansiedade só encontra explicação na psicologia.
Há no Inter um desejo incontido de sepultar qualquer resquício do carvalhismo.
Sinto-me irremediavelmente idiota diante de tal empenho.
Na minha ignorância o carvalhismo, movimento oriundo de Fernando Carvalho, deveria figurar no estatuto do clube como algo a ser perseguido.
Prossigo.
Barcellos reuniu alguns jornalistas para algumas explicações. Fez bem.
Mesmo com os R$ 109 milhões que entraram da Liga o último balancete apresentou déficit de R$ 144 milhões.
A dívida total é de R$ 694 milhões.
São R$ 150 milhões com bancos.
Barcellos disse que a folha está em R$ 14 milhões sem a comissão técnica.
Em quanto estava com Bustos, Aránguiz, Maurício, Mallo, Coudet…
Certamente acima dos R$ 20 milhões.
Tal folha se justificaria com títulos.
Nem ruralito anda pingando vai tempo.
E há a informação de que o clube pretende buscar mais R$ 200 milhões dando como garantia o estádio.
Diante deste fato sou obrigado a colocar a gestão de Medeiros como milagrosa.
MEDEIROS
Marcelo Medeiros pegou um clube na Segundona, quebrado, visitando mais as páginas policiais do que futebolísticas, tendo que remontar a instituição financeiramente e em campo.
Com ele na presidência o Inter entrou 2020 com déficit de R$ 3 milhões.
Isto não é déficit.
Quando poderia decolar, veio a pandemia.
Até julho de 2020 o Inter havia arrecadado R$ 113 milhões.
Estou arredondando os números.
No mesmo período em 2019 entraram nos cofres R$ 219 milhões.
Este é o tamanho do estrago do coronavírus na época: R$ 106 milhões a menos.
Pode ser um pouco mais ou um pouco menos.
Um rombo gigantesco.
A bilheteria deixou R$ 3,5 milhões em 2020 (arredondando sempre).
Em 2019, havia deixado R$ 12,7 milhões. A TV deixou quase R$ 77 milhões até julho de 2019. Em 2020, R$ 40 milhões.
As receitas com patrocínio despencaram R$ 7 milhões.
Estes números justificaram o déficit de cerca de R$ 100 milhões na pandemia.
Foi menor, porque o clube deixou de contabilizar R$ 21 milhões pela colocação do Brasileiro.
Como o certame terminou em fevereiro de 2021, o dinheiro entrou na gestão Barcellos.
O déficit, justificável até para os quero-queros de Carlos Barbosa, provocou frisson entre oposicionistas.
O estouro de agora do Inter não pode ser debitado na conta da enchente.
A gestão Medeiros não entregou título, como a gestão Barcellos também não entregou nestes três anos e meio de mandato, porém não pode ser saqueada no seu maior mérito.
A gestão Medeiros promoveu um déficit histórico, justificável, repito, mas deixou ativo para pagar a conta, Yuri Alberto.
Foi com outro ativo da gestão Medeiros que Barcellos contou a hoje para cobrir gastos. Falo da venda de Maurício.
A CARTA
A convite do Correio do Povo, Alessandro Barcellos enviou um resumo de suas propostas e intenções para a gestão do clube nos próximos três anos. Assim, o torcedor poderia saber o que esperar e cobrar.
A carta foi publicada em 15/12/2020, dia da eleição que tornou Barcellos presidente por três anos.
INTER, A EXPECTATIVA
“Superar o cenário atual é o nosso propósito e nossa meta.
Seremos até o final de 2021 o clube mais moderno da América do Sul e, até 2023, estaremos entre os Top 3 de resultados de campo do Brasil, com equilíbrio econômico e financeiro.
Para realizar uma obra dessa dimensão nos apoiamos em quatro elementos: ciência, método, categorias de base e sócios.
E alta capacidade de execução.
Mudar radicalmente o modelo passa por resgatar a fórmula que nos fez vencedor no campo esportivo e, junto com isso, fazer as rupturas necessárias, em oposição ao que está posto.
No campo, precisamos ser propositivos. Uma equipe orientada a controlar o jogo, com imposição técnica e proprietária da bola.
Que goste de agredir. Sempre tivemos nas categorias de base o talento que ancorou o protagonismo das nossas equipes.
Vamos implementar um eixo de ciência de dados, com modelos inovadores, potencializando os talentos da base e harmonizando com a capacidade de capturar jogadores de alto potencial, antes dos adversários.
Nossas metas são claras para a base: representar 40% da equipe profissional e no mínimo 4 jogadores na equipe titular. A equipe de gestão será voltada a realizar esse projeto.
Vencer com a identidade e a marca das categorias de base.
Na equação financeira, um plano de sócios transformador, com o ambiente e a facilidade para buscar a meta inicial de 200 mil sócios pagantes.
Enfrentar com método e coragem as travas internas na nossa cultura.
Ser o clube mais digital do Brasil e montar uma máquina comercial, levando o Beira Rio a cultura colorada para o sócio.
Nos custos, ter método e máxima eficiência, buscando a redução de gastos, em processos firmes que nos permitam explorar no limite cada possibilidade de economia.
Nossa paixão não tem mais tempo a perder."
Inter: de Luigi, o grande, passando por Medeiros, o milagroso, até a carta de Barcellos
A dívida do Inter vem sendo passada de gestão para gestão desde a fundação do clube. Está no DNA da instituição. Alguns dirigentes foram mais realistas. Outros mais sonhadores.
