Inter diante do vírus: "medidas péssimas"
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Inter diante do vírus: "medidas péssimas"

Entrevista com José Amarante, vice de administração da gestão Giovanni Luigi

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José Amarante atuou como vice de administração da gestão Giovanni Luigi. Foi presidente da primeira comissão que investigou gastos na gestão do ex-presidente Piffero, entre 2015 e 2016. Tentou concorrer para presidente (para biênio 2017/18) mas ficou fora da disputa "no pátio". Ele aceitou participar de uma entrevista neste momento complicado da vida dos clubes brasileiros.

Como o senhor viu as medidas tomadas pela direção do Inter diante da pandemia do coronavírus?


 Péssimas. Demoraram para agir para renegociar contratos com fornecedores e o grupo de atletas. Preferiram demitir dezenas de funcionários de grandes serviços prestados ao Clube, mostrando claramente a falta de gestão. E a economia com isso foi ínfima, ficando sem sentido algum do ponto de vista de gestão, prejudicando a imagem do Clube perante a torcida e a opinião pública.

A informação é de que com a demissão de cerca de 40 funcionários a economia será de R$ 200 mil. Achou a medida necessária ou o clube poderia ter feito diferente? 

Basta ver o exemplo de empresas competentes. Estas empresas reduziram salários, usaram o auxílio governamental e protegeram seus colaboradores em meio a uma pandemia. Os "gestores" colorados optaram o caminho de seguir com contratos milionários com fornecedores de segurança, TI, limpeza etc..., seus funcionários ficaram sem emprego e sem o plano de saúde. Um absurdo.


O senhor pensa em se candidatar para presidente no final do ano?

 Independente ser candidato ou não, sempre estarei a disposição, pois quero o meu Inter voltando a ser protagonista no campo e fora dele de novo.
Como analisa o balanço de 2019, o déficit de R$ 3 milhões?Amarante: Se pegarmos o quanto foi arrecadado e o quanto foi gasto chegamos à conclusão que houve importante aporte de receitas. Mas igualmente houve um grande aumento de gastos sem resultado esportivo algum. Um ano sem taça mais uma vez - o que é uma marca muito ruim desta gestão.

Como avalia a atual gestão? 

 Muito mal. A narrativa de que pegaram um clube na segunda divisão e o recuperaram é uma falácia. Com um orçamento muito maior que os outros 19 competidores da série B precisaria ser muito incompetente pra não subir. E mesmo assim conseguiram perder o título em um campeonato de pontos corridos para o América-MG, que tinha orçamento muitas vezes menor. Isto é uma verdadeira façanha na história dos campeonatos de pontos corridos no país, geralmente vencidos por quem tem mais dinheiro e grupo de qualidade, por ser uma competição de longo prazo. Além disso, completaram 3 anos e três meses perdendo todas as taças. Perderam para o Novo Hamburgo, para o América-MG, para o Atlético-PR com meia defesa reserva. E perderam todos os mata-matas para o nosso rival. Nunca, desde que o Beira-Rio foi inaugurado, há 51 anos, uma gestão teve três anos sem taça alguma. Um fiasco para o nosso torcedor.

Poderia citar o maior acerto e o maior erro desta gestão?

Maior acerto foi colocar o Inter a disputar títulos, mesmo gastanto muito e mal para isso, contratando muitos jogadores e treinadores, aproveitando muito mal a base. Maior erro foi mesmo com toda esta gastança, não conseguir uma mísera taça relevante e formando poucos atletas que o time realmente usou, especialmente entre 2017 e 2019. 

Arriscaria dizer quanto o Inter deixará de arrecadar este ano com a crise? 

Ouvi entrevistas dos dirigentes atuais falando em 100 milhões a menos. Mas tudo dependerá de quando e em que condições os campeonatos retornarem. E isso ninguém sabe. Nem a Fifa, nem a CBF, nem ninguém.

Quanto tempo  o clube precisará para deixar as finanças em ordem? Os salários dos executivos do Inter não estão fora da realidade, muito acima dos praticados por empresas? 

Depende da capacidade de gestão. Grandes resultados financeiros podem ser obtidos rapidamente se houver um bom diagnóstico seguido de atitudes inteligentes. Os salários dos executivos só se tornam caros quando os resultados que apresentaram em suas funções não são condizentes com a expectativa e a tradição do Inter, que são gigantes.

Que medida tomaria para manter o sócio em dia sem futebol?

O sócio sempre foi e sempre será o maior parceiro do Clube. Ele naturalmente seguirá ao lado do Inter se enxergar competência na gestão. Se não enxergar, vai parar de pagar mesmo. 

No futebol, o que o senhor teria feito de diferente já que o time não conquistou um título sequer nos três anos de gestão Medeiros? 

Prioraria a formação e a promoção de atletas da base. Isto é o DNA do Clube. Mas formaram poucos, deram poucas oportunidades aos que surgiram e preferiram contratar dezenas de jogadores mais caros e com pouca resposta. Para que contratar atletas para grupo, por exemplo, que custam muito mais que os jovens e trancam seu desenvolvimento?

Como vê esta questão com  Turner? 

Um contrato confuso desde a sua gênese. Apostaram que iriam faturar mais do que os que seguiram com a Globo, mas erraram. E agora, em meio à pandemia, corremos o risco de perder esta receita imediata. Péssima escolha que remonta à gestão desastrosa de Piffero e sua diretoria.

Acha que o Gauchão deve ser retomado? 

Amarante: Penso que o futebol deva ser retomado pelos estaduais com todos os protocolos de segurança e saúde que possam ser tomados. Mas somente quando as autoridades decidirem assim. A prioridade agora é a vida das pessoas.

Quando acha que o futebol retornará? 

Amarante: Vai depender do sucesso de algumas adaptações que estão sendo realizadas especialmente na Europa e na nossa capacidade de aprender com elas. Mas não arrisco um palpite agora. Depende de muitas variáveis ainda.