Hiltor Mombach

Inter, Grêmio e outros: dinheiro primeiro, taça depois

"Tudo em busca da mina de ouro. Da caça ao tesouro. O deus dinheiro"

"Amigo Hiltor: 
     O futebol moderno e altamente mercantil é recheado de paradoxos. 
Muitos dos quais escapam do controle e do entendimento do torcedor comum e menos avisado.
    Digo isso, porque a constatação é fácil de ser feita. 
Atualmente, os clubes do primeiro escalão e vários da hierarquia secundária têm tido oportunidades de participar de diversas competições durante o ano inteiro.
    Isso vale tanto para o Brasil como para o futebol estrangeiro, só que aqui, no caso deles, com organização mais racional e de realização perfeitamente viável, com calendários previamente determinados e cuidando, por assim dizer, do bem-estar de clubes e atletas, sem sobrecarregar em demasia.
    No nosso país, existe um arremedo de calendário. 
Mas, sem estudos aprofundados. 
Nem sequer se leva em conta as peculiaridades do variado clima nacional. Estabelecem-se, em consequência, horários estapafúrdios para jogos em estados permanentes quentes e, muito pior, para jogos em nosso estado, por exemplo, às tardas horas, debaixo de frio e cerração intensos.
   E isso é só a ponta do iceberg.
   E os clubes, por sua vez, acumulam suas culpas. 
Querem participar de toda e qualquer competição, desde que renda dinheiro e não mais títulos e troféus. 
Bem ao contrário de antigamente, quando havia, apenas e tão somente, os campeonatos regionais e nada mais. 
Disputava-se um título da cidade ou do estado com extraordinária vibração, como um cão faminto à cata do primeiro osso...
   Não existia a tal de "prioridade". 
Era tudo ou nada. 
Claro, sei, passou esse período e os clubes precisam sobreviver. 
Agora, nos dias atuais, é mais importante participar por participar, mesmo que os títulos não venham. 
Se vierem, tanto melhor, taça no armário e faixa no peito, aquelas estórias...
   Todavia, a "prioridade".
Estaduais, Copa  do Brasil, Brasileirões em suas várias séries, Libertadores, Sul-Americanas e, se possível, o Mundial de clubes.
    Tudo em busca da mina de ouro. Da caça ao tesouro. O deus dinheiro. 
    Porque, eis aonde quero chegar, tudo bem que um clube participe do maior número de competições, mas acabando por priorizar essa ou aquela - ou só uma - não está ele sendo honesto para com sua torcida. 
    Pois, ao torcedor, o que interessa são as vitórias. Dinheiro, problema da diretoria. Pelo menos, na teoria e nos sonhos.
    Do que adianta estar em todas e não disputar nenhuma com ganas de ser campeão? E ao dar mais ênfase a uma, assim que a desclassificação chega, passa-se, desesperadamente, para a valorização do Plano B - se ainda houver e der tempo.
    Assim, os clubes vão se iludindo e iludindo ao torcedor. 
Cinco ou seis certames anuais para nenhuma conquista esportiva de maior significado. O que vale é a grana e não a grama por onde a bola corre e se vence.
    Como explicar isso de maneira convincente aos adeptos em geral? Como se os clubes proclamassem: 
"Não precisa que venham ao estádio hoje porque esse torneio não nos interessa por enquanto"...
     Chega um momento que o torcedor não engole mais e esgota sua paciência. 
Algumas dessas tais de "prioridades" acabam sendo, na verdade, desculpas para maus desempenhos e usando tal evasiva se vai do começo ao final de cada temporada. 
"No ano que vem nossas prioridades serão revistas". 
    E nada muda e tudo continua a mesma ladainha.
    Paradoxal situação. 
Ver o clube do coração não dar importância por aquilo que tanto se empenhou em arrumar uma vaga. Serão mesmo necessárias tantas participações por ano sem uma grande e real motivação?
Por que não em uma ou duas, mas disputando para valer, com reais chances de conquistar a ambas ao contrário de perder todas na maioria das vezes?
    Falo disso, principalmente, porque não sendo torcedor nem do Grêmio e nem do Internacional, observo que o Internacional está completando QUARENTA ANOS sem o principal título do nosso país. QUATRO DÉCADAS. E o Grêmio duas e meia! Convenhamos que é tempo demasiadamente longo, para não dizer ridículo.
   Nesse ponto, em termos de parâmetros com clubes de outros países, ambos os clubes estão nivelados com Valência, Verona, Lazio, Leiscester, Danúbio, Defensor, Argentinos Júnior e coisas do gênero. 
Não há outra forma de comparação com os grandões que sempre lideram seus respectivos campeonatos, sobrando as exceções - o caso da dupla Grenal no Brasileirão.
    Ainda bem que há outras competições para compensar o que é um verdadeiro fiasco. 
    Acho que está na hora de uma revisão de expectativas e uma melhor e mais adequada projeção de objetivos. 
    Era isso.
    Meus abraços, Francisco Michielin"