Hiltor Mombach

Lembrei do Inter de Iarley

Eis o que me pergunto hoje: porque o Brasil não imitou o Inter? Numa inocência digna do futebol africano, os Canarinhos se atiraram ao ataque.

Retomo uma frase de uma crônica de Nelson Rodrigues:
"O patético de nossa época é que o passado se insinua no presente e repito: a toda hora e em toda parte, a vida injeta o passado no presente. Olhem em torno e vejam.
É terrível.
O passado irrompe numa gravata, num gesto, num sapato ou num colarinho.
Estamos usando os bigodões dos nossos avós. Há sujeitos que se vestem e calçam como os nostálgicos defuntos familiares."
Eram 39 minutos finais. Eu estava em Yokohama, no Japão, e assisti boquiaberto Adriano Gabiru fazer 1 a 0 para o Inter diante do poderoso Barcelona de um Ronaldinho estupefato. 
Ora, eu atravessara o mundo para ver o improvável.
Ali, naquele momento, pensei: o fantástico, o inimitável Barça, vai empatar!
Aos 43 minutos a bola colou no pé de Iarley Não sei se me entendem: colou literalmente. Na arquibancada, um ensandecido Fernando Carvalho surgia de olhos esbugalhados. 
Tudo era secundário, insignificante naqueles derradeiros minutos enquanto a  bola estivesse com Iarley.
O relógio comia os segundos e Iarley jantava os espanhóis gastando o tempo.
Isso que acabo de relatar tem 16 anos.
Eis o que me pergunto hoje: porque o Brasil não imitou o Inter?
Numa inocência digna do futebol africano, os Canarinhos se atiraram ao ataque.
Não vi Tite gesticular, esbravejar. O gol de empate dos croatas deixou o Brasil chumbado ao gramado.
E assim, chumbado, foi para os pênaltis.
O futebol está instalado nas manchetes vai décadas.
Até as crianças do jardim de infância sabem de cor e salteado que, quando o assunto é Copa do Mundo, há jogos que acabam não acabando.
A catimba, a cera, o chutão, a falta, tudo faz parte do abecedário do futebol.
Quando Neymar fez 1 a 0, ali, o jogo limpo, jogado, deveria ter sido sacrificado em nome de uma vaga.
Perdoem se retomo o assunto tão dolorido.
Sou obsessivo quando o assunto é tragédia e a do Brasil cheira à tinta fresca.
Não me conformo com eliminação tão infantil.
O velho país do futebol padeceu de uma recaída infantil.
Que tristeza!