Aos 84 anos, o presidente mais vitorioso da história do Grêmio, que comandou o clube nas suas grandes conquistas, lança o livro Fábio André Koff – Memórias e Confidências. O que faltou esclarecer, editado pela AGE.
Com depoimentos dados ao professor Paulo Flávio Ledur e ao seu filho, o jornalista Paulo Silvestre Ledur, a obra de mais de 240 páginas tem textos em primeira e terceira pessoa, e promete sacudir o mundo do futebol com algumas revelações.
O lançamento, na segunda-feira, dia 14 de março, será no Estádio Olímpico, o palco das conquistas da equipe tricolor. Sigo publicando alguns capitulos.
“O Jardel é completamente inocente. É dessas coisas que acontecem no futebol. Nós tínhamos perdido ou empatado um jogo pelo Campeonato Gaúcho, e eu fui almoçar na churrascaria do Olímpico, a Mosqueteiro. Telefonei para o Felipão e disse que queria falar com ele para fazer uma análise do jogo. Era um hábito nosso fazer isso depois dos jogos. Ele chegou na churrascaria e perguntou: – Presidente, o senhor se dá bem com o Eurico Miranda? Eu disse para ele que sim. E o Felipão se explicou: – O Vasco está emprestando um jogador para o XV de Piracicaba, ouvi agora na rádio, que se chama Jardel, que me interessa. Terminamos de almoçar, sem que eu desse muita bola para o assunto. Quando retornava para minha sala e o Felipão se dirigia para o vestiário, ele disse para mim: – Vou com o senhor lá na sua sala para falarmos com o Eurico Miranda. Surpreso, eu indaguei:
– Agora? Então vamos lá. O Vasco tinha jogado no dia anterior, no domingo, contra o Flamengo e levara 4 a 2. E pensava: “Tem hora para chegar no Eurico; não pode ser em qualquer momento. Ele é um cara que diz as coisas que a gente muitas vezes não tem coragem de dizer.” Aí liguei, ele atendeu e eu falei: – Eurico, tudo bem? Tu tens aí um centroavante que tu vais emprestar para o XV de Piracicaba. O que vai adiantar isso para ti? Empresta para o Grêmio, que é uma baita vitrine. Empresta para nós. Se ele é bom, vai se valorizar aqui. De forma decidida, Eurico falou: – Espera aí um pouquinho que vou fazer uma ligação com o outro telefone. Deve ter conversado com algum supervisor para saber como estava o negócio com o XV de Piracicaba. Então voltou para o telefone e me disse: – Leva essa coisa logo daqui. No jogo contra o Flamengo, quando o Vasco levara goleada, o Jardel fora vaiado quando anunciaram o nome dele no banco de reservas. Ou seja, não era titular, mas a torcida o vaiava.
Então perguntei: – Mas, Eurico, quais são as condições? E o Presidente do Vasco não fez qualquer exigência: – Manda a passagem para ele. O passe fica fixado em U$ 1 milhão, e paga quando puder. Então pedi para o Eurico mandar um contrato, um ofício. A resposta foi daquelas típicas do Eurico: – Você está aposentado, mas continua com a cabeça de Juiz de Direito. Contrato feito no papel é para ser rasgado; palavra não se rasga. Custa um U$ 1 milhão! Depois pedi que o Verardi mandasse a passagem para o Jardel embarcar no dia seguinte. Foi desse jeito que veio o Jardel. Ele tinha vocação para o gol. Houve um Gre-Nal, que estava empatado em zero a zero. Faltando uns 10 minutos, desci para a casamata. Aí o Felipão se virou e disse para mim:
Vou colocar o Jardel para matar esses caras. Chamou o Jardel antes de um escanteio e mandou segurar até chegar na área. Não deu outra: o Jardel entrou e fez de cabeça. Quando ele começou a se destacar, vieram os portugueses interessados em contratá-lo. Descobriram que ele pertencia ao Vasco e foram lá, falaram com o Eurico, que não me disse nada. Então peguei um dinheiro emprestado para comprar o Jardel no final do empréstimo. De posse do valor, liguei para o Eurico: – Presidente, qual é mesmo o valor do passe do Jardel? Para minha surpresa, ouvi do Eurico: – O que é que você está pensando? Que eu vou mudar o preço porque os portugueses estiveram aqui e ofereceram U$ 1,5 milhão? É U$ 1 milhão para ti, e paga como quiser. Mas eu estou precisando de 500 mil dólares em 15 dias para pagar uns compromissos. O resto você paga como quiser. Foi essa a minha palavra com você. Ele cumpriu com a palavra, pois não tinha nenhum contrato escrito comigo. Depois os portugueses vieram a Porto Alegre e compraram o Jardel do Grêmio por U$ 1,9 milhão. O Jardel sempre foi um grande profissional. Na Europa ele ganhou a Chuteira de Ouro. Fazia gols de tudo quanto é jeito. A bola batia nele e entrava. Vocação para goleador! Ele era muito profissional. Depois, quando casou e o casamento não deu certo, ele se abalou. Ele é um gremista que vai a jogo, vai a treino, está sempre na volta. Antes de ser deputado, eu abria a porta e estava ele na porta do gabinete. Uma pena que um casamento fracassado, seguido de quadros de depressão e da adesão ao mundo das drogas tenham atrapalhado tanto a vida desse extraordinário gremista.”