Hiltor Mombach

Meus pedidos para o Papai Noel

Papai Noel. O senhor ainda povoa meu imaginário. O pedido não é para este Natal, mas para o próximo...

Papai Noel.
O senhor ainda povoa meu imaginário.
O pedido não é para este Natal, mas para o próximo.
Lembro que, quando piá, o senhor me trouxe de presente uma bola número 3.
No meu tempo de guri, na minha querida Garibaldi, a bola tinha uma importância fundamental entre a gurizada.
Mais do que esta parafernália tecnológica para a garotada de hoje.
O dono de uma bola número 5 garantia lugar certo no time e escolhia posição.
Porque haviam poucas bolas número 5.
Mesmo sendo um notório perna-de-pau o dono de uma bola número 5 determinava sua escalação como atacante se assim decidisse.
Não fosse o dono, iria para o gol.
Todo perna-de-pau tinha lugar garantido no gol.
As bolas tinham todas a mesma cor alaranjada e eu ganhava uma a cada Natal.
Tinha status de titular, portanto.
Onde há um menino e uma bola, a imaginação voa.
Minha imaginação buscava um goleiro chamado Aranha Negra, cujo nome vim a saber bem depois: Lev Ivanovich Yashin. Atuava de preto do Guides à camisa, passando pelo calção forrado ao lado para suavizar os voos que eu imaginava dar.
Mas o senhor trouxe de presente uma número 3.
A bola número 3 era pequena.
Ninguém jogava com a número 3. Fechado no banheiro, lembro de ter chorado muito.
O assunto, porém, é outro.
Meu pedido para o próximo Natal é ganhar de presente o título do Brasileiro.
Pode ser com Inter ou com o Grêmio.
Eu também pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel.
O senhor já deixou de presente o título para paulistas, cariocas e mineiros.
Para os gaúchos, nada.
Estou falando do Brasileiro por pontos corridos.
Outra coisa, Papai Noel.
Há anos escrevo sobre os dois Brasis.
Há um Brasil nababo, que se alimenta de ostras e filé mignon e ataca de Dom Pérignon e caviar e um Brasil que entra na fila osso.
Flor de obsessivo, venho registrando meu espanto diante dos salários pagos aos jogadores.
Neste país onde o assalariado vai ao açougue comprar osso, não há limite para a desavergonhada escalada salarial.
Tudo com a cumplicidade do governo, que há décadas socorre os clubes pedalando as dívidas fiscais em intermináveis anos.
Um jogador ganhar R$ 500 mil, R$ 800 mil ou R$ 1,5 milhão por mês não desperta mais indignação.
Por trás deste escândalo salarial esconde-se outro ainda mais apavorante, crudelíssimo num país de pé-rapados: os nababos ficarão ainda mais nababos. O
s salários do futebol descortinam um Brasil faz de conta. Lembrando que o salário mínimo passará para R$ 1.500.
São R$ 18 mil num ano, R$ 180 mil em 10 anos.
Tal abismo é afrontoso.
Como o senhor vê, são na verdade dois pedidos.
O título do Brasileiro para o futebol gaúcho e um Brasil mais justo.
FELIZ NATAL QUERIDOS LEITORES
SAÚDE E PAZ

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