MORREU TIA CHICA. NÃO DEIXE DE LER
Do querido amigo, escritor Walter Galvani (http://www.waltergalvani.com.br/blog/)
"Dito assim, ou escrito com a leveza de uma bela manhã de domingo, como esta de outono que mereceria ser classificada de primavera, talvez não tenha o impacto merecido, a manchete que encima essas linhas: sim, morreu a Chica do arquivo do jornal Correio do Povo.
Pois faleceu, não importa a que idade (foi além da marca dos oitenta) pois todos achávamos que a Francisca Espinosa era imortal.
Mesmo tendo passado por sérios problemas de saúde que a levaram ao hospital diversas vezes, não imaginávamos que aquela fortaleza de corpo e espírito estava para sucumbir.
Pois, partiu. Para novas missões no astral, por certo.
Por que aqui na Terra ela foi um baluarte da seriedade e da dedicação ao seu trcabalho, competência desenvolvida ao longo dos anos, lealdade aos conceitos que aprendeu como justos, amor pelos seus amigos, franqueza e generosidade com eles e o heroismo no cumprimento do dever.
Heroísmo que a levou ao ato de 20 de setembro de 1972, quando, em plena ditadura militar, indiferente à presença de centenas de soldados que haviam comparecido à rua Caldas Junior, para apreender e mais tarde cremar toda a edição do Correio do Povo, por ordens da Polícia Federal, passouna cara deles com 20 exemplares do jornal censurado e condenado.
Só assim a sociedade pôde ter certeza de que a Censura havia atingido o grande jornal e a edição foi preservada, figurando na coleção mantida junto ao gabinete da Chica, para o tempo que durar a consciência da história do Brasil e do nosso jornalismo.
Hoje, os pesquisadores podem acessar aquele exemplar, uma quarta-feira, 20 de setembro de 1972, por coincidência a data histórica farroupilha.
Chica ainda pôde fazer mais: desceu outra vez e recolheu maois alguns exemplares. Os demais, levados para a av. Paraná, onde ficava a sede da Polícia Federal, foram todos queimados em grande incêndio festejado pelos inimigos da liberdade de imprensa e da democracia.
Deve pois, Francisca Espinosa, a nossa Chica, o nosso agradecimento e reconhecimento e figurar no panteão dos herois da Imprensa. Que poderiam ser em maior número, a nosso gosto…
Ela era o “arquivo vivo” do jornal onde atuou por 60 anos. O significado de sua presença ali, em mais de meio século, está presente também pelo carinho como que tratou sempre os exemplares do jornal, cada um como se fosse um filho, os filhos que ela não teve, mas que testemunhas vivas da nossa História, permanecerão no arquivo do Correio do Povo como seu legado.
Uma herança inigualável. Ela consertava cada folha que se rasgava por algum descuido de pesquisador, buscava suprir as falhas nas coleções, selecionava os preciosos exemplares que não seriam mais alvo de manuseio.
Assim foi a Chica até o fim. Até o amargo fim para todos nós os que com ela privamos e participamos, como companheiros, como pesquisadores, historiadores ou amigos, dessa sua luta encerrada neste segundo dia do mês de maio de 2010, com 85 de idade completados a 28 de fev ereiro próximo passado, 60 de Correio do Povo."
Hiltor Mombach escreve.
Tia Chica estava com 86 anos. O Prêmio ARI/2009 recebido pelo esporte pela autoria do Caderno sobre os 100 anos do Gre-Nal passa por Tia Chica. Quase todo material estava nos arquivos do CP. Lembro de ter solicitado um exemplar antigo e Tia Chica ter vetado a saída do jornal. Qu eu enviasse alguém para fotografá-lo. Assim, no seco. Isto que eu era amigo da Tia Chica. Um exemplo.
