Hiltor Mombach

Mudanças, onde?

Instalou-se no Brasil uma era de mudanças que estão atingindo também os clubes de futebol.
Você olha para cá, para lá e jura: as coisas estão  mudando e para melhor.
Primeiro, abriram o voto para presidente ao sócio.
Quanta democracia!
Depois, a queda da cláusula de barreira para renovação dos conselhos deliberativos tornou os clubes mais arejados.
E uma juventude antes numa vista invadiu os salões nobres ansiosa por transformações radicais.Nelson Rodrigues abre assim uma das suas crônicas:
“Se me perguntassem qual a mais feia impostura da nossa época, eu daria a seguinte e fulminante resposta: é a cínica promoção que se faz do jovem.”
A invasão juvenil nos conselhos dos clubes dá esta aparência de reforma total e absoluta. Mas a verdade verdadeira é que os clubes mudaram não mudando.
Ainda paira sobre as instituições o poder dos caciques.
São eles que ditam as normas e fazem as leis.
Sim, senhores: as leis dos caciques estão acima dos estatutos.
Ou, se preferirem, os estatutos existem apenas para serem manipulados conforme a ocasião. Vejam. O estatuto do Grêmio é claro quando diz que “não poderá fazer parte do CD o associado que “receba do Grêmio qualquer tipo de remuneração, seja como prestador de serviço, funcionário assalariado, profissional liberal ou empresário”.
Nem quem “venha a receber ou reivindicar, sob qualquer pretexto ou justificativa, mesmo profissionalmente, interesses contrários aos do Grêmio ou venha a representar terceiros em ações movidas contra a associação...”
Para os dois casos, os caciques fizeram ou fazem vistas grossas.
Como fizeram vistas grossas no caso ISL, mandando arquivar sem ler, isto mesmo, sem ler, o relatório da Comissão de Ética.Vamos ao Inter.
O que foi feito da denúncia de Roberto Siegmann em seu Twitter:
“Enquete: é justo com os sócios alguém ser vice de futebol de um clube e, sem ser permitido, retirar R$ 30 mil por mês com notas frias?”
Há uma dezena de outros casos que escancaram a ingenuidade dos jovens diante desta aparente democracia, desta abertura oferecida pelos caciques.
Era imensamente mais difícil de manipular os conselheiros dos tempos antigos.Se me perguntassem qual a mais feia impostura da nossa época, eu daria a seguinte e fulminante resposta: é a cínica promoção que se faz de que os clubes estão mais transparentes politicamente.