Hiltor Mombach

Não há dinheiro que chegue no futebol

Já trabalhava no Correio do Povo. Num tempo em que para falar com um dirigente de Grêmio ou Inter era necessário ir ao estádio ou dar sorte de encontrá-lo pela noite em sua residência. Só haviam telefones fixos e mesmo assim era uma briga para conseguir um. Nem se sonhava com as redes sociais de hoje.
Assim, obrigatoriamente eu conversava pessoalmente com o querido e inesquecível Gilberto Medeiros um dia sim, o outro também. Ele me chamava de “perseguinte”. O tempo passou o sigo o mesmo, perseguindo informações, checando e informando.
Lembro de quando Gilberto Medeiros ganhou a eleição para presidente. Ele comandou o clube nos anos de 1986 e 1987.Ao tomar posse cometeu uma frase histórica: ”vim para pagar títulos, não para ganhá-los”. Em 87 o clube foi vice-campeão brasileiro.
Abro um parêntese para uma pequena história. Volta e meia eu encontrava o Gilberto na rua da Praia, perto do Correio. Numa destas vezes perguntei sobre uma reunião do Conselho Deliberativo que haveria naquela noite. Ouvi dele mais ou menos isto: “Não vou. Nesta noite vou brincar com os meus netos”. Ali eu soube que ele estava doente. Fiquei muito triste.
Muitos anos depois eu lembrei de Marcelo Medeiros numa conversa que tive com o estimado amigo Fábio Koff. Nossos laços remontam a Garibaldi.
Vai tempo, muito tempo. Koff estava fora do Clube dos 13 e buscava ser outra vez presidente do Grêmio. Acabou ganhando a eleição. Então aos 82 anos, me disse que com esta idade ele estava provando a sobremesa a vida. Certamente os netos eram a sobremesa da vida de Medeiros. Como são agora de um outro querido amigo de anos, Adalberto Preis. Faço aqui uma confidência. Foi a sobremesa da vida que fez com que Preis não aceitasse prosseguir como vice de futebol do Grêmio em 2017.
Três dirigentes de futebol de estirpe, com virtudes e defeitos, mas de estirpe.
Trinta anos depois, eis que Marcelo Medeiro vai ocupar a mesma cadeira presidencial. E, assim como o pai de saudosa memória, seguirá pagando contas.
Fui pioneiro no RS em levantar as contas de Grêmio e Inter. Isto num tempo em que nem se falava em publicação de balancete. Em 1997 o Inter devia R$ 27 milhões. Obviamente deveria dever bem menos na gestão Medeiros. Hoje o passivo bate nos R$ 350 milhões.
A elogiável gestão Luiggi, presidente que trabalhou com um Beira-Rio fechado, em reforma, teve que buscar reforço de caixa para pagar o 13º do segundo ano do seu mandato. Vendeu para o empresário Sonda Delcir 10% dos direitos federativos de Alan Costa, Cláudio Winck, Valdívia e Sasha por R$ 1 milhão de euros. Foi apedrejado pela Oposição. O tempo deu o troco.
Agora, a atual gestão terá que fazer não mais do mesmo, mas pior: talvez tenha que recorrer aos bancos, que obviamente cobram juros, para quitar o 13º. Só de juros o Inter deverá pagar cerca de R$ 18 milhões este ano.
Fábio Koff foi eleito presidente do Grêmio pela segunda vez em 1993. Herdou de Rafael Bandeira dos Santos um clube quebrado. Não havia dinheiro para pagar água e luz. Assim como Medeiros, Koff não escondeu a crise. Vazou a péssima situação financeira.
Em 1996 o Grêmio devia R$ 11 milhões. Hoje, o faturamento da instituição passa dos R$ 230 milhões, com um passivo que bate nos R$ 200 milhões.
Quando escrevo, a direção corre em busca de recursos para pagar o 13º. Em dezembro, os gastos com salários e 13º dos jogadores batem nos R$ 20 milhões. O clube recebeu R$ 100 milhões de luvas da TV e precisa de R$ 50 milhões para entrar 2017 sem dívida. Só de juros deverá pagar R$ 30 milhões este ano.
Nada mudou de Gilberto Medeiros e Koff até os dias atuais. Nunca em tempo algum os clubes faturaram tanto, mas seguem gastando mais do que podem. O futebol é uma praia à parte neste Brasil. Aqui, a crise fica restrita aos balanços, não chegando ao bolso de jogadores e empresários. É um outro Brasil.