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Nos tempos em que não havia dinheiro de patrocinadores, a verba da televisão era curtíssima e os sócios adimplentes não passavam de 2, 3 mil, Inter e Grêmio cobravam ingresso barato e, volta e meia, o torcedor quase entrava de graça. Lembro de um jogo em que o Inter cobrou R$ 1,00 pelo bilhete. Hoje, a TV coloca R$ 50 milhões em cada clube por temporada, fora as polpudas luvas, a receita com os sócios passa dos R$ 40 milhões/ano, só o Banrisul despeja R$ 13 milhões/ano, a transação de jogadores para o exterior rende fortunas (desde 2003, o Inter arrecadou mais de R$ 400 milhões negociando atletas), o faturamento bruto anual passa fácil dos R$ 200 milhões e, em contrapartida, o valor do bilhete não para de aumentar.
Enquanto isso, o Brasil vê despencar a cada ano a taxa de ocupação dos estádios. No Brasileiro de 2012, a taxa ficou em 38,4%. Segundo a Pluri Consultoria, os 61,6% de espaços não utilizados equivalem a 7,9 milhões de ingressos encalhados. Isto aponta para uma receita bruta direta de R$ 300 milhões jogados no lixo.O consultor de marketing Amir Somoggi publicou um estudo sobre os dez anos de Brasileiro por pontos corridos. A média de público só faz cair nos últimos seis anos. A do bilhete só sobe.
Nessa semana, o repórter Fabrício Falkowski teve acesso a um documento de 24 páginas chamado de “setorização do Beira-Rio”. Nas considerações finais consta que “o grande desafio do novo Beira-Rio é fugir do aspecto de estádio vazio, que tem sido tendência vista nas novas arenas”. Na contramão do documento, a direção colorada informava que crianças com idade até 15 anos terão que pagar meia-entrada nos jogos do clube. O bom senso mandou que recuasse, mantendo isentas crianças até 6 anos.
Espetáculos pobres, venda recorrente dos melhores jogadores, custos adicionais (condução, lanche, bebida...) e uma realidade diferente da europeia, que premia o espetáculo enquanto que no Brasil conta o resultado de campo, pay per view, alguns jogos por TV aberta e Internet, somados a tantos outros fatores, estão tirando o público dos estádios. Para compensar, os clubes aumentam o preço do ingresso, que se tornaram insuportáveis até para a classe média.
Nem locais VIPs escapam do encalhe. A Arena do Grêmio tem 50% de ocupação nos camarotes, embora para Gilmar Machado, diretor de marketing e negócios do estádio, isto se deva ao difícil acesso ao local, pois o entorno ainda não está pronto.
A lei da oferta e da procura, tão importante numa sociedade de consumo, ainda é desconhecida pela maioria dos dirigentes de clubes.