No Brasil, a mentira atinge ‘nível epidêmico’
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No Brasil, a mentira atinge ‘nível epidêmico’

Uma mentira que ouvi durante anos é a de que clube grande não quebra. Pode não quebrar, mas diminui de tamanho

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Vai algum tempo o advogado Rodrigo R. Monteiro de Castro, coautor do livro "Futebol, Mercado e Estado", escreveu uma crônica para o site Migalhas com o título de “Chernobyl e o futebol”. Recentemente, Rodrigo concedeu entrevista para este colunista, publicada em duas páginas no Correio do Povo, falando, entre outras coisas, sobre a eterna ameaça de espanholização que assombra essa modalidade no Brasil.
Na crônica, trata de fenômeno que no Brasil, segundo ele, atinge nível epidêmico, a mentira.
“Primeira mentira: o jogador brasileiro é o melhor do mundo. Já foi. Não é mais. Nos dias atuais, tornou-se commodity. Em sua maioria, sai do país despreparado e volta sem consagração. Os poucos jogadores que atingem o estrelato são transformados, por lá, em produto de ponta e, no final de suas carreiras, repatriados para iludir a massa torcedora.” Os exemplos estão aí. Com raras exceções repatriamos veteranos em fim de carreira.
“Segunda: os times brasileiros (ainda) têm apelo mundial. Não é verdade. Tornaram-se, hoje, meros exportadores de commodities. Pior: estão, em sua maioria, tecnicamente quebrados, e são preservados por benesse de uma legislação anacrônica e pela leniência do Estado, que os financia com isenções fiscais, perdões de dívidas, parcelamentos e reparcelamentos de débitos tributários...”
Estudo da empresa de marketing esportivo Sports Value revelou que os 20 clubes mais endividados do futebol brasileiro, em 2018, apresentavam um déficit de R$ 6,9 bilhões: “Nos últimos 8 anos as dívidas dos 20 clubes subiram 86% enquanto o IPCA acumulado do período foi de 57%.”
Salto para a quinta mentira. Estamos claramente diante de clubes que já não parecem ter o mesmo tamanho de anos anteriores. Por outro lado, alguns grandes estão ficando mais grandes, sempre tomando como parâmetro o futebol brasileiro.
“Quinta: dinheiro, no futebol, não garante resultados. A ascensão de times antes inexpressivos – ou não tão relevantes historicamente –, como Manchester City e PSG, que, após o ingresso de vultosos recursos, passaram a figurar na lista dos 10 maiores do planeta em receitas e se tornaram os principais protagonistas de seus países e importantes competidores do futebol mundial, refuta a falácia. Em sentido contrário, times brasileiros tradicionais, como Vasco e Botafogo, atolados em dívidas, se apequenam a cada dia.”
Na “Análise Econômico-Financeira dos Clubes Brasileiros de Futebol”, trabalho feito pelos profissionais da área de crédito do Itaú BBA com base nos balanços dos clubes de 2018, chama a atenção a seguinte colocação: “O excesso de dívida que pode ter criado clubes grande no passado agora podem derrubá-los. A grandeza pode ter sido apenas uma bolha se o clube sofrer e perder a capacidade de competir no futuro.”
Uma mentira que ouvi durante anos é a de que clube grande não quebra. Pode não quebrar, mas diminui de tamanho. Num efeito dominó, os médios viram pequenos e os pequenos somem do mapa. Resumo: todo zelo com as finanças é pouco