Hiltor Mombach

NO SOWETTO COM KHABO MOLEFE

NO SOWETTO COM KHABO MOLEFE

Percorri o subúrbio de Sowetto nesta segunda-feira. Tive como guia Khabo Phillip Molefe, 59 anos. Molefe é nosso motorista em Johannesburgo. Ele nasceu no Sowetto. Conforme íamos avançando, a pobreza mostrava sua cara ainda mais cruel. Perguntei se ali havia violência: "Não, não há. Os brancos podem entrar sem problema". A declaração não fechava com o quadro que ia se desenhando: arremedos de bares cercados por grossas barras de ferro, com o atendente feito prisioneiro dentro e o comprador, fora.

O carro seguia e percebi que Molefe ia se emocionando. Logo soube a razão: "Está vendo aquele campo? Eu jogava bola ali quando era pequeno". Quis saber se jogava bem: "Muito bem". O telefone de Molefe toca, ele atende e começa a falar um dialeto africano. Desliga e pede se eu quero conhecer a sua primeira casa. Anda mais um pouco, para o carro, desliga o motor e aponta. A casa é modesta, mas é uma casa, um luxo para muitos que perambulam por ali. Seguimos. Molefe entra em algumas ruelas, desafia o trânsito louco naquela hora da tarde, e de repente estaciona. Sai do carro e pede que eu faça o mesmo. Agora está visivelmente emocionado. Desconheço o motivo. Vai para o centro de uma praça e, num inglês atropelado, esclama: "Aqui, foi aqui." Neste momento eu entendo a sua emoção. Agora, sim, estamos em Sowetto, no centro revolucionário de Sowetto, palavra que tem origem em South-West Township, ou "Cidadela do Sudoeste".

Busco os dizeres das placas, as imagens, e um arrepio percorre meu corpo. Lembro de ter tido esta mesma sensação ao deslumbrar a Acrópolis de Atenas, com o imponente Partenon fincado ao centro. Na época do Apartheid, Sowetto foi o foco de resistência anti-racista e de protestos dos negros contra a política oficial de discriminação racial. Uma destas manifestações mais violentas, o levante de Soweto, começou nesta praça, neste local. Ali os africanos viveram um dos mais sangrentos episódios da rebelião. Era junho de 1976. Uma manifestação que era para ser pacífica acabou num massacre que matou quatro alunos, entre eles o estudante Hector Pieterson, 13 anos.

A praça dá para o Apartheid Museum. Convido Molefe para uma visita. Pagamos 25 rans (cerca de R$ 6,00). Este museu tem o melhor acervo sobre as atrocidades dos brancos contra os não-brancos na África do Sul. Ali estão expostos recortes de jornais, fotos e palavras das vítimas. Molefe vai mostrando as fotos, citando nomes. Aponta para Mandela ainda jovem. Fala de outros heróis. Na saída, faço um último registro de vídeo. É quando um guarda me diz que é proibido qualquer registro. Molefe sorri. Com razão. Havia tirado dezenas de fotos sem ser importunado.

Para encerrar a visita ao Sowetto, uma passada pela casa de Mandela. Casa que virou museu. Custa 60 rans a entrada (R$ 15,00). Por um cerca, vejo um guia africano contando a história de Mandela para alguns turistas.
Algumas destas imagens você verá aqui.