Hiltor Mombach

Nossa gritante fragilidade econômica

O volante Arthur fez estreia como profissional do Grêmio em 2015, mas só se firmou em 2017.
Bastou despertar atenção para entrar na mira do futebol europeu. Seu destino deve ser o Barcelona.
No Brasil, é assim. Entra ano e sai ano e o torcedor assiste a revoada dos melhores jogadores. Alguém já disse que o verdadeiro Brasileirão é disputado no exterior.
Impactou fortemente a supremacia do Real Madrid sobre o Grêmio na final do Mundial de Clubes, levando especialistas a comentar tamanha disparidade.
Cesar Grafietti, economista e executivo do Itaú BBA, onde é o responsável por estudos sobre a situação financeira dos clubes brasileiros, escreveu para o Correio do Povo sobre a Lei Bosman: “O que levou os clubes europeus a esta superioridade tão inalcançável é uma soma de fatores, e seria simplório atribuirmos a apenas um deles.
Mas tudo tem um início e nos parece claro que a aprovação da chamada “Lei Bosman” é o big bang.
Ao permitir a livre circulação de atletas comunitários entre os diversos membros da zona do Euro, abriu-se a possibilidade da criação de verdadeiras seleções mundiais dentro dos clubes. Obviamente, os clubes de maior poderio financeiro, gerado a partir das maiores receitas, que permitem aquisições caras e manter folhas salariais elevadas, foram os grandes beneficiados...”
O assunto é inesgotável. José Miguel Wisnik escreveu vai algum tempo “Veneno remédio / O futebol e o Brasil” pela Companhia das Letras, 430 páginas.
Ali o músico, compositor e ensaísta,faz uma avaliação realista do nosso futebol: a fragilidade financeira:
“Retomando então do ponto em que estávamos: a exportação de jogadores de futebol para o mundo todo é, evidentemente, um índice gritante da fragilidade econômica, política e cultural, incapaz de reter os grandes craques consumados ao mesmo tempo em que produz também os obscuros trabalhadores da bola à procura de oportunidades em todos os confins do mundo. Num só fôlego, o crítico francês (Pascal Boniface) não deixa de dizer espirituosamente que o império brasileiro sobre o futebol rebate de modo feliz — por que universal mente aceito — o império político-econômico norte-americano, ao mesmo tempo em que recobre a extensão do império britânico, que se impôs como aquele sobre o qual, por abarcar toda a redondeza da Terra, o Sol jamais se punha.
A expansão do futebol pelo mundo teria dado lugar, assim, pelo menos dentro do campo, a um império que, no seu núcleo lúdico, não é nem político, nem econômico, nem militar: não um “império que contra-ataca”, mas um contra-império que se faz na contramão dos impérios.
Refiro-me ao reconhecimento admirativo, espontâneo e popular de Pelé, Ronaldo ou Ronaldinho, e do futebol que eles representam, manifesto nos centros e nas periferias mais distantes, no Haiti, na África, no Leste Europeu, nos recônditos do Afeganistão ou do Iraque ocupados.”
A frase que fica: “ A exportação de jogadores de futebol para o mundo todo é, evidentemente, um índice gritante da fragilidade econômica, política e cultural”.