Vai muito tempo escrevi o que segue.
“Corria a década de 90, o Grêmio papava tudo e um jornal do centro do país rotulou o time gaúcho como o mais violento do Brasil.
Usou como gancho uma estatística que hoje seria desmascarada na hora pelas redes sociais.
Para o desavisado, o time mais violento só podia mesmo ser de um estado separatista.
A fama pegou e a partir daí um suspiro de Dinho virava vendaval.
O centro do país sempre deu o futebol gaúcho como violento. Os cariocas suspeitam que seus times conquistam taças sambando e os paulistas por serem naturalmente superiores.
Todo mundo dá e leva porrada em futebol, mas só a gauchada leva a fama. Bairrista declarado, afirmo que parte do país não nos engole.
Como é que pode um estado que despenca do mapa ter dois títulos mundiais, quatro Libertadores, 10 nacionais e tantos outros internacionais?
Para irritação maior, há um entra e sai de técnicos gaúchos na Seleção: Dunga, Mano, Felipão e até os quero-queros de Barbosa sabem que a vez de Tite chegará.”
Feito Nostradamus pampeano, acertei no Tite.
Mais recentemente, fiz esta coluna.
O amigo Juremir, que ontem autografou o livro “Jango”, escreveu não vai tempo que ninguém é mais bairrista no Brasil do que cariocas e paulistas.
Concordo discordando.
O bairrismo do gaúcho vem acompanhando de duas síndromes, a do coitadismo e a do egocentrismo.
“Nossa convivência com o extremismo começa com a temperatura, que varia 20 graus num dia.
Moramos num Estado que despenca do mapa e que carrega a fama de separatista.
Se há um Brasil dentro do Brasil este fica no RS. No futebol, por exemplo, ninguém nos vence: nós é que perdemos.
E, quando perdemos, é porque fomos garfados.
Aceitamos uma garfadinha, mas uma garfadona como aquela do Brasileiro de 2005 é indigesta demais.”
Alguém dirá que estou fardado, vestindo bairrismo a rigor.
Estou.
Assumo e justifico.
Até os quero-queros de São Pedro da Serra sabem que a CBF nos relega, assim como a Plim-Plim.
Pois como filhos desterrados na nossa própria casa passamos a relegar o Brasil. Nosso negócio é o mundo.
O exterior virou quintal da gauchada. Visitamos mais os Emirados Árabes Unidos e o Japão do que Garibaldina.
Só nos últimos 12 anos, no tempo do Mundial Interclubes/Fifa, carimbamos nosso passaporte três vezes. Média de uma vez a cada quatro anos.
Nosso negócio é o mundo.
O resto do país que morra de inveja.
O Inter andou pelo Japão em 2006.
Quatro anos depois esteve nos Emirados Árabes Unidos.
Como a grenalização funciona na base do onde tu vais, eu vou atrás, agora o Grêmio está nos Emirados.
São Paulo tem quatro times grandes: São Paulo, Palmeiras, Santos e Corinthians. Mesmo com quatro grandes só teve representante em quatro edições do Mundial Interclubes-Fifa criado em 2000. O Corinthians esteve em duas (2000, no Brasil, e 2012, no Japão), o Santos em uma (2011) e o São Paulo também em uma (2005).
Do Rio, só o Vasco da Gama participou (em 2000) e de Minas, apenas o Galo (2013).
Minha previsão é de que nos próximos quatro anos teremos Grêmio ou Inter participando de mais um Mundial. Como o Grêmio anda por cima da carne seca, a tendência é de que ele vá para o seu segundo Mundial nesta nova fórmula, o quarto na história.
Encerro a coluna com a alma lavada e enxaguada de orgulho, assumindo e escancarando o meu bairrismo, com um trecho do hino do Rio Grande do Sul.
Mostremos valor constância / Nesta ímpia e injusta guerra / Sirvam nossas façanhas / De modelo a toda Terra / De modelo a toda Terra / Sirvam nossas façanhas / De modelo a toda Terra.
