Hiltor Mombach

O apitador que eu quero para o futebol

Amigos, hoje escrevo sobre um assunto que não entendo bulhufas. Jurássico, não integro as gerações que discorrem sobre Inteligência Artificial com impressionante naturalidade.

Amigos, hoje escrevo sobre um assunto que não entendo bulhufas. Jurássico, não integro as gerações que discorrem sobre Inteligência Artificial com impressionante naturalidade. 
Uma das figuras obrigatórias desta coluna é o árbitro de futebol, conhecido aqui como assoprador de apito. Até os quero-queros de Paraíso sabem que eles entendem tanto de regras quanto os marcianos.
Digo isso com convicção absoluta. Alguém dirá: baseado em quê? Ora, em depoimentos. Ninguém esqueceu os 4 a 4 entre Corinthians e Grêmio e ninguém esquecerá o pênalti de carteirinha sonegado ao time gaúcho.
Provocou espanto a variedade de interpretações. Leio que arte é tudo aquilo que você quer que ela seja. Regra de futebol é tudo aquilo que os ditos entendidos querem que ela seja. Não, não estou exagerando. A prova provada do que digo está nas três opiniões que seguem.
Para o árbitro de vídeo, um tal de Emerson de Almeida, ele (Yuri Alberto) está recolhendo o braço. Ele não está indo com o braço na direção da bola. Ele está recolhendo. Wilton (Wilton Pereira Sampaio, o árbitro), lance checado, ok. Pode jogar."
Já o assistente de VAR, Michel Patrick Costa Guimarães, retrucou: "Você não acha que está muito aberto, não? Que essa bola passaria se ela não bate no braço?" 
Aí, entra o senhor Péricles Bassols, gerente técnico do VAR: "O bloqueio da bola com o braço nesta ação caracteriza a infração de pênalti, portanto uma penalidade deveria ser marcada no campo de jogo. E quando não marcada, o VAR deveria recomendar revisão para tal ação".
Um marciano teria uma opinião isenta. Este colunista imagina que marcianos não torcem por clubes terráqueos. Nem são movidos por interésses.
Proponho aposentar árbitros, auxiliares e seus penduricalhos e dar o comando para a tecnologia. Sim, quero a Inteligência Artificial apitando. Flamenguistas e corintianos irão berrar. E que parte dos torcedores e dirigentes sentiriam saudades dos tempos em que, após um tropeço, havia em quem atirar impropérios.
Jonathan Crowe escreve um belo texto na revista Piauí com o título "a solidão do juiz". Trecho: “Os juízes de futebol compõem um grupo variado, mas existem vários tipos familiares a torcedores e jogadores. Há o rigoroso, que sempre aplica a letra da lei. Há o vacilante, que foge das decisões difíceis, leva o apito à boca com frequência, mas raramente aponta uma falta. Há também o afetado, que parece atuar no papel de juiz: sua postura é um pouco aprumada demais, seus gestos, excessivamente ensaiados. Temos, por fim, o carteiro, que distribui cartões amarelos e vermelhos por qualquer coisa, e o durão, que desafia os jogadores e incita o enfrentamento.”
Todos estes tipos e os demais seriam varridos pela Inteligência Artificial. Teríamos, enfim, um apito isento.