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Há um Brasil que não se escandaliza mais. Vitimado pela banalização do escândalo, o brasileiro resignou-se. Aceitamos o escândalo sem perplexidade. Foi publicado terça-feira no “Diário Oficial da União” decreto presidencial que reajusta o salário mínimo para R$ 724,00 a partir do dia 1º de janeiro de 2014. Este foi o presente natalino jogado no presépio do brasileiro. Com o quilo da carne concorrendo com o grama de ouro este salário mínimo é um escárnio.Mas não é desta presepada jogada no presépio do brasileiro que eu quero falar. Meu assunto é futebol. Dias atrás publiquei aqui mesmo que o treinador Enderson Moreira deverá ganhar cerca de R$ 150 mil mensais para comandar o Grêmio. Recebi muitas mensagens comemorando o fato. Uma delas, de Luiz Paulo, de Londrina, dizia: “Renato, gremista de coração, de bolso não! Excelente a contratação deste técnico e dentro de valores reais. O Jayme do Flamengo renovou por R$ 150 mil.” Não nos escandalizamos mais diante de tamanha obscenidade por um singelo motivo: nos acostumamos com a banalização dos salários batendo no R$ 1 milhão. Receber 15% de R$ 1 milhão significa receber mais de 200 salários mínimos por mês. Diante de um escândalo maior, o escândalo menor surge como “valor real”, soa como um “só isto”, quase como uma miséria. Nelson Rodrigues escreveu em uma de suas crônicas: “Ah, o brasileiro não é bom de mesa. Dirá alguém que somos um povo pobre, e mais: — trazemos do berço a vocação, o destino da pobreza. Mas não falo de miséria. Aqui também o rico é um pobre de mesa.” Adaptando, diria que somos um povo pobre, trazemos do berço a vocação, o destino da pobreza e mais: aceitamos esta indecência, esta pornografia salarial, este abismo obsceno, com resignação.