Hiltor Mombach

O cartola e o treinador

Bolsonaro e a fritura de Mandetta

O presidente Jair Bolsonaro é o estereótipo do cartola do futebol brasileiro nestes tempos onde a bola está parada e o coronavírus domina o noticiário mundial. Nesta comparação o ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, seria o treinador.
Gostei da sacada do blogueiro Perroni e avanço um pouco, acrescentando aqui e ali. 
O time no caso é o Brasil. Ofuscado pelo treinador, o cartola esbraveja e tanta promover a sua fritura: “Algumas pessoas no meu governo, algo subiu à cabeça deles, estão se achando… Eram pessoas normais, mas de repente viraram estrelas e falam pelos cotovelos, tem provocações, mas a hora deles não chegou ainda, vai chegar a hora deles. Porque a minha caneta funciona. Não tenho medo de usar a caneta, nem pavor, e ela vai ser usada para o bem do Brasil. Não é para o meu bem. Nada pessoal meu”. 
Estrela só ele, o cartola. 
“Mandetta, Mandetta”
Há um problemão para consumar o ato, transformar a fritura verbal num canetaço. Na arquibancada o torcedor grita "Mandetta, Mandetta", transformado em herói do time brasileiro. Para enfurecer ainda mais o cartola, uma pesquisa (Datafolha) aponta que, entre os brasileiros que declaram ter votado em Bolsonaro no segundo turno da última corrida presidencial, 82% classificam como ótimo ou bom o trabalho de Mandetta. 
O cartola se vê diante de uma situação inusitada: seu treinador já aparece como um oponente na próxima corrida presidencial. Seca desesperadamente enquanto da arquibancada a torcida segue gritando "Mandetta, Mandetta". Ataca, buscando um retruque afrontoso que justifique a demissão do treinador, porém este avisa que não abandonará a equipe ("médico não abandona o paciente).
Fio da navalha
E quanto o campeonato terminar, como ficará? Demitir Mandetta se o seu time tiver sucesso será eternizá-lo como um líder não mais apenas da saúde, mas como político de ponta, ele que já foi deputado, capaz de almejar o cargo de cartola. Como diz a manchete do jornal El País: "Mandetta, o conservador que vestiu o colete do SUS e entrincheirou Bolsonaro. Antiabortista e opositor ferrenho dos Mais Médicos, ex-deputado foi executivo de plano de saúde e se aproximou de presidente na campanha. Ameaçado de demissão, ele anda no fio da navalha e vê apoio popular disparar".
Quando escrevo esta coluna pipocam informações de que o cartola está reunido com outro treinador (Osmar Terra). Obviamente trata-se de outra manobra de fritura. Vai demitir ou é mais um jogo de cena?   E a torcida grita “Mandetta, Mandetta”.