Hiltor Mombach

O contraste entre o 1º e 3º mundo

Por Diego Silva, sócio patrimonial nº 64862


A Arena é linda. É uma obra grandiosa, faraônica, confortável. Os torcedores, já tão acostumados com o frio do concreto ou com as desconfortáveis cadeiras do velho Olímpico, são presenteados com um espaço que oferece um conforto antes inimaginável em um estádio de futebol brasileiro. Somos agraciados com uma esplanada gigantesca, capaz de suportar com folga os torcedores em um dia de jogo com lotação máxima.


Temos a nossa disposição quatro rampas de acesso a esta esplanada, que comportam um fluxo de torcedores para ninguém colocar defeito. As entradas para o interior do estádio, onde ficam localizadas as famosas catracas, são tantas que quase se precisou de um sistema de nomeação diferente, pois o alfabeto perigou ficar pequeno.


Dentro do estádio, somos brindados com uma área de circulação interna também de tamanho respeitável, o suficiente para comportar com folga os torcedores que por ali circulam atrás de um lanche, banheiros, ou estão só a passeio. Por falar em lanches, o número de local para a instalação de bares e outros estabelecimentos beira o exagero, assim como o número de banheiros. Uma estrutura de primeiro mundo, realmente.
Dito isso, você deve estar pensando que nós, torcedores que frequentamos a Arena do Grêmio, temos uma vida de Rei por lá, não é? Não poderia estar mais enganado. Aqui começa a ficar claro esse contraste entre uma obra de 1º mundo e um país com instituições e pessoas de 3º.


Desde a inauguração, as grandiosas rampas de acessos à esplanada, com capacidade para comportarem um fluxo imenso de torcedores, são completamente inúteis. O torcedor, ao caminhar para acessar a sua rampa, logo nota que algo não está certo. Momentos depois, ele percebe que uns 50 metros antes da rampa, ele é obrigado a entrar em um “brete” de, no máximo, 2m de largura, e caminhar como se fosse gado, espremido junto às milhares de pessoas que também estão tentando acessar a rampa (que, nunca é demais frisar, comportaria todos eles facilmente, sem nenhum problema), na repetição de um modelo de controle que já não funcionava no Olímpico, e que é ainda mais sem propósito em um lugar como a Arena, que foi feita pensando exatamente em um livre e rápido acesso de seu torcedor às suas dependências.


Ora, estou longe de querer ensinar a BM a fazer seu trabalho, mas gostaria de saber por que não fazer a revista nas mais de 20 entradas espalhadas pela esplanada, e deixar o torcedor caminhar livremente pelas dependências do estádio, como foi planejado para ser desde o início. E quando tiver shoppings, lojas, academias, restaurantes, redes de fast-food, etc, a pessoa que em dia de jogo, quiser somente ir a algum desses lugares, terá que se espremer e esperar horas em filas intermináveis para só então ter acesso ao local pretendido? Aqui se chocam uma estrutura de 1º mundo e uma organização de multidões, por parte da BM, de 3º mundo. É algo para se rever.


Bom, ainda temos os bares, certo? Pois é, infelizmente não é bem assim, como pode ser visto nas fotos que estou enviando junto com esse texto. Um fato bem conhecido, e que não irei discutir, é que ainda não foram comercializados todos os espaços, e por isso temos filas intermináveis nos poucos bares disponíveis. É algo natural, é algo compreensível, é algo até esperado. O que não é natural, nem compreensível, e muito menos esperado, é que os bares já disponíveis ofereçam condições tão precárias de atendimento e higiene. A impressão que nos passa é que os velhos bares do Olímpico simplesmente pegaram suas coisas, colocaram em um caminhão de mudança, e trouxeram para a Arena. Esgotos aparecendo, refrigerantes, águas e cervejas em caixas de isopor que alagam o chão, enfim, aquela velha organização digna de um estádio com mais de 50 anos, em contraste com a estrutura de um estádio que não deve nada aos melhores estádios do mundo. Quando teremos bares bem equipados?


Quando teremos um atendimento e higiene à altura da Arena? Gostaria sinceramente de saber.
Um último ponto que eu gostaria de tocar é os detalhes. É uma reclamação constante entre gremistas que frequentam a nova casa, de que a impressão que passa é que depois da inauguração, o estádio foi deixado de lado. É um fato público e notório que nossa nova casa foi inaugurada antes do tempo. O gramado pagou por isso, o pessoal que caiu na avalanche pagou, e talvez até as negociações dos naming rights tenham pagado pela precipitação. Certo, mas, agora, paciência, termina o que ficou pendente e segue a vida.
E esse é exatamente o problema: não parecem estar terminando nada. É banheiro sem forro, acabamento mal feito nos guarda-corpos, inclusive sem parafusos fixando-os (como pode ser visto na foto enviada junto com o texto), vazamentos, falta de limpeza dos pisos da esplanada e da área de circulação interna, falta absoluta de latas de lixos na esplanada, diversos brises faltando ou quebrados, guarda-corpo da Geral mal projetado e/ou construído, demora na confecção dos novos cartões dos sócios, confusão e falta de claridade na venda de ingressos no primeiro jogo oficial, nem sinal do sistema que vai permitir informar quando o sócio não for ao jogo...
O pior é que muitas destas coisas já poderiam ter sido resolvidas antes da própria inauguração. Não são os pedreiros que fazem os novos cartões, não são os engenheiros que desenvolvem o sistema para o sócio avisar ausência, não é o mestre de obras que negocia o contrato de instalação dos bares, não são os caras da grama artificial que exigem bons equipamentos nos estabelecimentos.


Enfim, tudo isso poderia (e deveria) ter sido resolvido há muito tempo. A impressão que eu e muitos outros gremistas temos é que, depois da inauguração, por algum motivo, concluir a Arena e oferecer serviços de qualidade ao seu torcedor foi deixado meio que de lado, como se agora que já inaugurou e já estivesse sendo usada, não tivesse mais pressa para acabar o que falta. Não pode ser assim. Isso é planejamento de 3º mundo. Será que no final das contas, teremos que nos contentar apenas com um estádio de 1º mundo e continuar convivendo com pessoas, serviços e organização de 3º? Espero sinceramente que não.