O craque
Ainda peguei o tempo em que um jogador para ser craque precisava ser craque, em que havia pudor em se definir alguém como tal. O craque era um acontecimento. Não havia craque de carteirinha. O craque do meu tempo só resiste hoje no dicionário. É tal o aviltamento do rótulo que meus netos não distinguirão um craque de um perna de pau.
Meu assunto de hoje é D’’Alessandro. O argentino é dado a lances geniais, mas não se trata de um craque. Ao seu futebol clarividente, magistral algumas vezes, mistura-se, em algumas partidas, uma certa esterilidade. Vejam: estou sendo pontual ao registrar que esta certa esterilidade dá-se em algumas partidas.
Minha intuição diz que ou o formidável meio-campista infunde temor aos treinadores ou garantiu vitaliciedade, pois cabe todo num refrão: "Daqui não saio, daqui ninguém me tira". Nem nos jogos, nos quais fica escarrada a esterilidade dos malabarismos do portenho, é indicado o caminho do chuveiro antes do apito final.
Não há escrúpulo algum, porém, quando se trata de sacar o arisco e decisivo Oscar, que já viu ser entregue o seu lugar para Wilson Mathias e Ricardo Goulart. A última imagem que tenho é de um Oscar submisso deixando o gramado para a entrada de Ricardo Goulart e de um D’’Alessandro colérico desafiando Rafael Sobis. Para bom entendedor, meio grito basta.
