Hiltor Mombach

O criador e a criatura

Fred não mora no Brasil.
Não neste Brasil espantosamente perverso com os seus cidadãos.
Só um morador da ilha da fantasia desdenha sem piedade de assalariados, desempregados, subnutridos, de um povo que, mendicante, hoje passa o pires.

Ao avisar que não joga mais sob o comando de Levir Culpi enquanto o clube não demitir o técnico, Fred cospe num salário de R$ 800 mil.
A Fundação de Apoio à Escola Técnica aproveitou a deixa:
“Já que o Fred não quer jogar, avisem para ele que ainda dá para se inscrever nos cursos profissionalizantes gratuitos da Faetec”.

Fred deveria ser enxotado, aos gritos. Para o imenso regozijo dos milhões sem emprego, dos que não possuem nada. Eu pagaria vários cafezinhos para ouvir alguém do Fluminense dizer que isso é uma vergonha, uma afronta ao clube e milhões de desesperançados brasileiros, vergados por uma vergonhosa crise política e financeira.
Lavaria e enxaguaria a alma se mandassem Fred catar coquinhos, perambular procurando quem lhe pague tamanha indecência.

Minha intuição diz que o criador, o Fluminense, consentirá, fará afagos, e a criatura, em escancarado ocaso, retornará dócil, embalada quem sabe por um aumento salarial.
E o amor, que conhecerá então o patamar do milhão, seguirá infinito enquanto durar.