O DIABO VESTE PRADA / AVALIAÇÃO DA GESTÃO DUDA POR MARCELO AIQUEL
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O diabo veste Prada
A minha amizade com o Duda Kroeff data lá dos anos 50. Porto Alegre era, então, uma cidade pequena. Nós dois, garotos que morávamos próximos, frequentávamos o mesmo clube, muitas vezes curtindo a mesma praia, com muitos amigos em comum.
Gremistas, em uma época de grandes vitórias e campanhas memoráveis (12 campeonatos gaúchos em 13 anos), ele era filho do Dr. Fernando, emérito Presidente e depois Patrono, o que lhe dava um “status” diferenciado junto ao nosso grupo.
Mais jovem do que eu, sempre tivemos uma relação extremamente cordial, sem jamais ter havido qualquer desavença entre nós. Nem quando, em lados opostos, lutamos na última eleição do nosso Grêmio.
O respeito na nossa relação prosseguiu íntegro neste ano e meio de “oposição”, o que se evidencia em um tratamento fidalgo, honrado, das críticas que eventualmente manifestei publicamente. Até porque, sempre recebi da parte dele o mesmo tratamento.
Apesar dos inúmeros (e notórios) equívocos cometidos pela sua gestão, que num regime presidencialista impõe ao chefe supremo a responsabilidade dos acertos e erros; conquistas e derrotas; entendia que o meu amigo Duda estava buscando sempre o melhor, imbuído naturalmente da intenção única de alcançar o sucesso do nosso clube.
Porém, a reiteração de atos que tem demonstrado falhas grosseiras no que diz respeito especialmente ao futebol (o pulmão do clube), somadas a uma omissão que beira a prepotência, estão maculando uma administração que iniciou pautada pela promessa de novos rumos, além – é claro – da esperança de títulos que viriam com base na experiência dos “padrinhos” da chapa encabeçada pelo Duda. Avalistas estes que agiram como raposas políticas – no mau sentido – e se afastaram ao notar que as coisas descambavam.
É possível, inclusive, que o meu velho amigo Duda se sinta magoado com esta manifestação, mas espero que ele, ao colocar a mão na sua consciência, compreenda que não há um foco pessoal no meu comentário.
Falo como gremista. Como torcedor. Como alguém desgostoso com os resultados, data vênia, pífios que vimos alcançando.
Ainda há tempo, apesar de escasso e premente, para que o Duda faça da sua terceira chance em cargo diretivo, desta vez no mais importante deles, a ponte para um sucesso que teima em não conhecer. Já teve as “chaves” do departamento de futebol e de uma vice-presidência de marketing, sendo ambas as passagens destituídas do brilho que dele se esperava. Porém, existe a atenuante de que esteve sempre subordinado a um comandante.
Só que agora não! Nesta oportunidade, presidindo o seu clube de coração, dono do poder, não só insiste em bancar o infortúnio de um departamento de futebol capenga e mal dirigido, como tenta desculpar as constantes falhas através de pronunciamentos que beiram a comicidade, como o mais recente (e que motivou esta manifestação), que transcrevo:
“Na verdade, com toda franqueza, não me preocupa muito. Nunca foi a do Grêmio jogar amistosos. O Grêmio é um time de competição, de torneio, de Copa do Brasil, já ganhou quatro; de campeonato brasileiro, já ganhou dois; de Libertadores, já ganhou duas! É o único time do sul que já ganhou a Libertadores duas vezes, que isso fique bem claro!” (se referindo ao fracasso da participação na Copa da Hora, Florianópolis, junho de 2010).
Ao escutar tal depoimento, logo após um vexame (Grêmio último colocado num quadrangular contra times medíocres), juro que não pude deixar de recordar das tristes passagens do “nosso site campeão” e do “novo ônibus”. Mas, não escrevo para tripudiar em cima desta infeliz e inoportuna declaração. Poderia fazê-lo, porém em respeito à pessoa do amigo, cuja discrição e elegância são comuns, evitarei.
Ora, meu caro Duda, a arte de tergiversar exige competência. O que, data máxima vênia, tem faltado ao presidente, ultimamente.
Mesmo porque, gabar-se de pagar as contas não serve como consolo, pois esta é uma obrigação inerente a uma administração responsável. Imperdoável é manter uma nau quase à deriva, com uma tripulação perdida que lhe serve como bússola. O comando ainda é – ou deveria ser – unicamente do presidente. Cabe exclusivamente a ele o peso das decisões. E as suas conseqüências!
Tal qual a personagem do conhecido filme O diabo veste Prada, confesso que não gostaria que o meu amigo Duda fosse lembrado mais tarde pela intransigência, teimosia, arrogância, e pela forma incomum de administrar as crises. Até porque pouco importa o rótulo, mas sim o conteúdo. Não adianta um comportamento austero, uma postura elegante, ou uma fala mansa, quando os resultados são patéticos. E o Grêmio FOOT-BALL Porto Alegrense vive, se alimenta, e respira futebol. Em primeiro lugar!
Como um velho amigo, espero que o Presidente Duda, desça à realidade; incorpore o torcedor incansável que ele sempre foi; indigne-se; e tome as medidas que urgem para salvar o que resta de seu mandato.
Até porque, esta terceira chance está lhe concedendo uma oportunidade de ouro para provar a todos os gremistas que ele herdou um verdadeiro gene vencedor.
Perder esta chance, da mesma forma singela como o time vem perdendo suas disputas, terá um preço muito alto.
Com certeza, a tradição do seu sobrenome gremista não merece que críticas como esta surjam na boca de, principalmente, amigos. Mas que antes de serem amigos, são gremistas. Como ele. Apaixonados pelo Grêmio. Como ele. E que, como ele, não suportam o insucesso. Reaja, meu amigo Duda. Enquanto há tempo.
Desculpe se fui duro. Mas, com certeza, não fui injusto.
Um abraço. Coragem, e boa sorte!
Marcelo Aiquel
