Hiltor Mombach

O encantador de serpentes

Por Antonio Carlos de Azambuja /  Conselheiro do Grêmio

Na reunião de 3ª feira, mais uma vez o CD DO Grêmio , órgão soberano do clube, se rendeu à admirável capacidade de persuasão do presidente Paulo Odone, reafirmando-se a sua enorme ascendência política sobre a atual composição daquele. Com talento retórico (reconhecido) e evidenciada capacidade de comunicação, convenceu a maioria do sodalício, em grande parte formada por notáveis (sábios) de nossa sociedade, de que se deveria aprovar um aditivo ao contrato original firmado com a empreiteira OAS, entre outros pontos, alterando, para mais R $ 65.000.000,00, o valor do financiamento bancário previsto originalmente. Pena de paralisação da obra.

Fê-lo, inobstante o completo desconhecimento dos hipnotizados assistentes, antigos e atuais componentes do sodalício - quase três anos depois do vínculo primitivo e com a obra em pleno andamento há um - sobre o seu orçamento, seu cronograma físico-financeiro, seu memorial descritivo. Tudo baixo um projeto que, desde sempre, se mostrou desconhecido em seus detalhes e que, inobstante, segundo consta, passou, nesse tempo, por variadas alterações, sem crivos de espécie alguma pelo dito órgão. Acresça-se a falta de identificação sobre o atual e real responsável pelo dito projeto, bem como a do dono da obra; a precisa origem e quantidade dos recursos até aqui nela empregados; o preço pago pelo terreno e sua atual titularidade efetiva; enfim, a completa falta de conciliação entre o que foi contratado em dezembro de 2008 e o que ocorreu e se executou depois.

Operou-se , enfim, o milagre do discurso de um novo Forrest Gump, uma Sherazade moderna. De real mesmo, daquela reunião, sobrou uma questão sequer abordada: quais serão as garantias ofertadas pelo devedor da operação aos bancos repassadores das verbas financiadas pelo BNDES. Se for a hipoteca do terreno, verifica-se que, tão pronto terminada a obra (em dezembro 2012), esse deverá ser entregue ao Grêmio ( em troca do Olímpico) inteiramente livre de ônus. Haverá, então, de necessitar-se a substituição de garantias ( R $ 260.000.000,00 mais os encargos financeiros até lá), para sustentar o pagamento da dívida por mais 7 anos. Quem as dará ? A OAS ? A Proprietária ? A Superficiária ? Ou o Grêmio ?. Quem tem patrimônio para o enfrentamento dessa circunstância ? Isso, parece, não está previsto nem no contrato original.

Não seria o caso do Conselho Deliberativo ter um pouco mais de cautela na apreciação dessas questões, ao invés de deslumbrar-se com fulgurâncias retóricas ? Afinal , o empreendimento, até aqui, em termos de resultados não se configura senão como um mosaico de desejos, projeções, perspectivas, avaliações otimistas, expectativas, fé. No fim, se Deus quiser, tudo vai dar certo, e, se não der, é porque não chegou ao fim.

É uma pena.