O fanatismo que cega
A orientação da FIFA quanto à marcação de pênalti em caso de bola na mão não é clara e dá margem a múltiplas interpretações. O ex-árbitro Márcio Chagas da Silva considerou os dois pênaltis legítimos. Outros analistas entenderam de forma diversa.
Para a FIFA, no caso específico, é pênalti quando ocorre ação deliberada do atleta no sentido de bloquear chute ou cruzamento e a bola acabar tocando na sua mão (leia-se mão e braço), mesmo que não haja intenção. Assim, quando o atleta dá um carrinho para travar uma finalização e a bola encosta em sua mão, deve-se marcar o pênalti, pois ele teve a atitude deliberada de se jogar pra bloquear o chute, correndo o risco de atingir a bola com a mão.
Particularmente, não acho tal entendimento o mais justo quando o jogador precisa utilizar a mão ou braço para se equilibrar numa queda, como ocorreu em um dos pênaltis marcados no jogo Inter X Cruzeiro-POA. Entendo, ainda, que o juiz da partida não deva apitar por achismos próprios ou de outrem, mas sim tem o dever de ofício de seguir as regras do futebol. Porém, se o entendimento das regras da entidade máxima deixa margem para dúvidas entre os próprios árbitros, fica complicado crucificar ou absolver um juiz que marque ou não a infração nesses casos.
Nesse contexto, quando retornei do jogo, fui analisar os lances e comentários, pois no estádio o torcedor não tem à disposição os recursos televisivos e a precisão das jogadas. E li uma verdadeira avalanche de comentários nas redes sociais de “torcedores do Cruzeiro” criticando as decisões do árbitro. Aliás, multiplicou por mil a quantidade de torcedores desse time num único dia, um fenômeno a ser estudado.
Mentiria se dissesse que fiquei surpreso. Eu tinha certeza absoluta que muitos torcedores de times adversários diriam que o Inter foi beneficiado, que o campeonato acabou, que é uma vergonha, etc. Até impedimento alguns viram no segundo gol do Inter. Basta ver a imagem congelada pra concluir, sem nenhuma dúvida, que o Lizandro estava na linha da grande área enquanto o defensor do Cruzeiro localizava-se no meio da grande área. Logo, afirmar que houve impedimento no lance é um completo absurdo.
E se esses lances tivessem ocorrido contra o Inter ou a favor do rival, o que teriam dito os mesmos críticos nas redes sociais? Salvo raras exceções, aplaudiriam o juiz dizendo que estava certo. E, por consequência, os colorados argumentariam que foram roubados, que o campeonato está previamente decidido em favor de outro, etc. Pois o fanatismo é assim: se houver um fato que beneficie o seu clube, partido ou religião, ele é correto. Entretanto, se o mesmo fato prejudicar, ah, daí ele é péssimo. Tudo é conforme o ponto de vista de quem sai beneficiado.
Esse emaranhado de opiniões raivosas não é novidade no futebol, tampouco exclusividade de uma única torcida. Esse fenômeno se deve ao fanatismo exagerado. O fanatismo, seja esportivo, religioso, político ou pertencente a qualquer outro segmento, costuma cegar as pessoas. Faço um mea-culpa, pois sou parte da sociedade e certamente já emiti opiniões raivosas e sem prévio raciocínio, influenciado pelo fanatismo clubístico.
Confesso que tenho procurado reduzir meu fanatismo clubístico. E evolui nos últimos anos, visto que atualmente não assisto mais aos jogos do rival, exceto quando muito decisivos. É uma evolução pequena, porém relevante para a minha própria saúde mental. Os jogadores ganham milhões, trocam de clube como quem troca de roupa e raramente estão preocupados com a torcida, enquanto nós, torcedores, nos estressamos, gastamos dinheiro, xingamos, e, por vezes, até discutimos arduamente com amigos e familiares que torcem para times adversários. Ora, o futebol é somente um esporte. Porém, as pessoas, cegas por seus fanatismos, cometem verdadeiras insanidades em nome de sua paixão, inclusive matam.
No âmbito político, por exemplo, convencionou-se no Brasil rotular as pessoas de petralhas ou coxinhas, conforme seus ideais partidários. Mais uma idiotice provocada pelo fanatismo exacerbado. Basta uma crítica ou um elogio a uma atitude do Governo para surgirem os rótulos. Eu não aceito rótulos, sou apartidário e defendo apenas um Brasil melhor, mais justo e que combata a corrupção, um mal que mata e adoece milhões.
Nesse contexto, há muito tempo venho amadurecendo essa tese de que o fanatismo cega as pessoas. Elas deixam de usar a razão, esbravejando raivosamente contra os outros baseadas apenas nas suas emoções e paixões. É simplesmente inaceitável que milhares de seres humanos sejam assassinados diariamente por simples divergências religiosas, políticas e esportivas.
Sejamos mais racionais e ponderados em nossas colocações, deixando um pouco de lado esse fanatismo tão nocivo. Preocupemo-nos mais em defender causas realmente importantes, como o combate à fome e à miséria no mundo, a política construtiva, ideias que possam tornar o mundo melhor para todos. Vamos exercer mais amor, diálogos sadios e respeito às diferenças, reduzindo conflitos, discussões ásperas e a intolerância em relação a opiniões divergentes das nossas. Ninguém é dono da verdade, nem perfeito. É mais salutar e mentalmente recomendável.
Dênis Schorr
O fanatismo que cega
A orientação da FIFA quanto à marcação de pênalti em caso de bola na mão não é clara e dá margem a múltiplas interpretações. O ex-árbitro Márcio Chagas da Silva considerou os dois pênaltis legítimos. Outros analistas entenderam de forma diversa.
Para a FIFA, no caso específico, é pênalti quando ocorre ação deliberada do atleta no sentido de bloquear chute ou cruzamento e a bola acabar tocando na sua mão (leia-se mão e braço), mesmo que não haja intenção. Assim, quando o atleta dá um carrinho para travar uma finalização e a bola encosta em sua mão, deve-se marcar o pênalti, pois ele teve a atitude deliberada de se jogar pra bloquear o chute, correndo o risco de atingir a bola com a mão.
Particularmente, não acho tal entendimento o mais justo quando o jogador precisa utilizar a mão ou braço para se equilibrar numa queda, como ocorreu em um dos pênaltis marcados no jogo Inter X Cruzeiro-POA. Entendo, ainda, que o juiz da partida não deva apitar por achismos próprios ou de outrem, mas sim tem o dever de ofício de seguir as regras do futebol. Porém, se o entendimento das regras da entidade máxima deixa margem para dúvidas entre os próprios árbitros, fica complicado crucificar ou absolver um juiz que marque ou não a infração nesses casos.
Nesse contexto, quando retornei do jogo, fui analisar os lances e comentários, pois no estádio o torcedor não tem à disposição os recursos televisivos e a precisão das jogadas. E li uma verdadeira avalanche de comentários nas redes sociais de “torcedores do Cruzeiro” criticando as decisões do árbitro. Aliás, multiplicou por mil a quantidade de torcedores desse time num único dia, um fenômeno a ser estudado.
Mentiria se dissesse que fiquei surpreso. Eu tinha certeza absoluta que muitos torcedores de times adversários diriam que o Inter foi beneficiado, que o campeonato acabou, que é uma vergonha, etc. Até impedimento alguns viram no segundo gol do Inter. Basta ver a imagem congelada pra concluir, sem nenhuma dúvida, que o Lizandro estava na linha da grande área enquanto o defensor do Cruzeiro localizava-se no meio da grande área. Logo, afirmar que houve impedimento no lance é um completo absurdo.
E se esses lances tivessem ocorrido contra o Inter ou a favor do rival, o que teriam dito os mesmos críticos nas redes sociais? Salvo raras exceções, aplaudiriam o juiz dizendo que estava certo. E, por consequência, os colorados argumentariam que foram roubados, que o campeonato está previamente decidido em favor de outro, etc. Pois o fanatismo é assim: se houver um fato que beneficie o seu clube, partido ou religião, ele é correto. Entretanto, se o mesmo fato prejudicar, ah, daí ele é péssimo. Tudo é conforme o ponto de vista de quem sai beneficiado.
Esse emaranhado de opiniões raivosas não é novidade no futebol, tampouco exclusividade de uma única torcida. Esse fenômeno se deve ao fanatismo exagerado. O fanatismo, seja esportivo, religioso, político ou pertencente a qualquer outro segmento, costuma cegar as pessoas. Faço um mea-culpa, pois sou parte da sociedade e certamente já emiti opiniões raivosas e sem prévio raciocínio, influenciado pelo fanatismo clubístico.
Confesso que tenho procurado reduzir meu fanatismo clubístico. E evolui nos últimos anos, visto que atualmente não assisto mais aos jogos do rival, exceto quando muito decisivos. É uma evolução pequena, porém relevante para a minha própria saúde mental. Os jogadores ganham milhões, trocam de clube como quem troca de roupa e raramente estão preocupados com a torcida, enquanto nós, torcedores, nos estressamos, gastamos dinheiro, xingamos, e, por vezes, até discutimos arduamente com amigos e familiares que torcem para times adversários. Ora, o futebol é somente um esporte. Porém, as pessoas, cegas por seus fanatismos, cometem verdadeiras insanidades em nome de sua paixão, inclusive matam.
No âmbito político, por exemplo, convencionou-se no Brasil rotular as pessoas de petralhas ou coxinhas, conforme seus ideais partidários. Mais uma idiotice provocada pelo fanatismo exacerbado. Basta uma crítica ou um elogio a uma atitude do Governo para surgirem os rótulos. Eu não aceito rótulos, sou apartidário e defendo apenas um Brasil melhor, mais justo e que combata a corrupção, um mal que mata e adoece milhões.
Nesse contexto, há muito tempo venho amadurecendo essa tese de que o fanatismo cega as pessoas. Elas deixam de usar a razão, esbravejando raivosamente contra os outros baseadas apenas nas suas emoções e paixões. É simplesmente inaceitável que milhares de seres humanos sejam assassinados diariamente por simples divergências religiosas, políticas e esportivas.
Sejamos mais racionais e ponderados em nossas colocações, deixando um pouco de lado esse fanatismo tão nocivo. Preocupemo-nos mais em defender causas realmente importantes, como o combate à fome e à miséria no mundo, a política construtiva, ideias que possam tornar o mundo melhor para todos. Vamos exercer mais amor, diálogos sadios e respeito às diferenças, reduzindo conflitos, discussões ásperas e a intolerância em relação a opiniões divergentes das nossas. Ninguém é dono da verdade, nem perfeito. É mais salutar e mentalmente recomendável.
Dênis Schorr
