Hiltor Mombach

O fardo do favoritismo

Carlos Corrêa / Interino

Não cozinho mais na primeira fervura, mas também não tenho idade suficiente para bater no peito e dizer “porque no meu tempo...” e emendar com alguma lição de moral. Odeio lições de moral, aliás. No entanto, eu lembro que quando era mais guri, favoritismo era um sinal de status geralmente bem recebido. Era legal ser o favorito. Mostrava para os outros que você era o tal naquilo ali, seja lá o que fosse aquilo ali. Mais do que tudo, ser considerado o favorito agregava respeito. O adversário sabia que para vencer você, ele teria que se esforçar ao máximo e depois mais um pouco. Ele precisava atingir a meta e, sem contar para ninguém, depois dobrar a meta. De uns tempos para cá, contudo, o favoritismo virou uma praga. Clubes, atletas e até mesmo políticos fogem do favoritismo como aqueles japonezinhos com cara de susto correm do Godzilla nos filmes. Antes, era legal ser favorito. Hoje, é um fardo. Um fardo que ninguém quer carregar. Na tentativa de entender a razão para isso, identifico dois pontos. O primeiro é o medo de que a confiança se torne arrogância e que com ela venha a soberba. Se eu sou tão bom, não preciso me preocupar com o adversário. Há um documentário sobre Mike Tyson em que ele fala abertamente que se achava tão superior a James Buster Douglas em 1990 que nem se esforçou tanto nos treinos. Foi nocauteado e conheceu a derrota pela primeira vez. Mas no caso do futebol, desconfio que exista outro elemento. Virou lugar comum o treinador da equipe que vai enfrentar o time favorito distorcer o contexto de tal forma que os jogadores acreditem piamente na versão contada no vestiário de que a opinião pública duvida do potencial deles. É o popular “olha lá, estão dizendo que o jogo já está ganho, que vocês são ruins e que não podem vencer de jeito nenhum”. Na base do orgulho ferido, os atletas entram com mais gana. Quando Renato dedica boa parte de sua entrevista no sábado refutando todo e qualquer favoritismo do Grêmio para o Gre-Nal, me parece muito mais preocupado em dar armas para Antônio Carlos Zago do que em lidar com uma possível soberba tricolor. Não deixa de fazer sentido, ainda que do Beira-Rio à Arena, todos saibam que o Grêmio é favorito.