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Como muitos dos amigos leitores joguei futebol na infância. Não haviam delimitações nos campinhos. Para marcar o gol, contavam-se alguns passos e fixava-se um pedaço de pau ou, se a terra era muito dura, duas pedras ou dois tijolos serviam para o propósito. As laterais eram determinadas pelo olhômetro, assim como a altura da goleira. Eram comuns as discussões sobre se a bola entrou ou não, se saiu pela lateral ou não. E as penalidades, então! Obviamente não havia ninguém para apitar a pelada, como também se prescindia de técnico ou orientador. Jogavamos guiados por um ditato: cada um por si e Deus por todos. Não havia relógio para determinar o tempo das partidas de futebol, o termo é um tanto pedante para rotular aquilo que era mais um divertimento: quase sempre virava em cinco e terminava em 10. Falava a individualidade. Os que tinham mais intimidade com a bola se davam bem. Não havia disposição tática e o passe era relegado. Quase tudo se resumia ao drible. Este não era apenas o meu tempo, mas um tempo que marcou o futebol brasileiro inclusive nas grandes capitais. O frenesi imobilário acabou com estes campinhos. Os meninos deixaram o ar livre, areião, o contato de pés descalços com a grama rala, onde em época de rosetas calçava-se Guides, para se esconderem em abafadas escolinhas. Dias atrás, Tostão escreveu uma coluna dizendo o seguinte: “Hoje, a maioria dos meninos frequenta as escolinhas particulares, públicas ou dos clubes. Os Zé Regrinhas, em vez de deixarem as crianças descobrirem a intimidade com a bola, tentam ensinar as regras, a técnica, o jogo e como competir, antes de elas terem um desenvolvimento psicomotor adequado. Mesmo assim, temos um grande número de jogadores habilidosos e criativos, mas com pouca lucidez e pouca técnica. Não existe arte nem craque sem ótima técnica. Já os europeus, menos habilidosos, aprimoraram a técnica individual e coletiva. Os grandes jogadores, mesmo quando não brilham, erram pouco.” Volta e meia passo pelo campo do Parque Ararigbóia. Vejo meninos jogando sob orientação de um treinador ou professor. Nem sempre foi assim. Hoje, os Zé Regrinhas, usando um termo de Tostão, lançam um olhar de condenação quando do drible mal executado. Preferem o passe à ousadia. Para Tostão, “o melhor professor é o que ensina o aluno a aprender sozinho.” O que estamos assistindo hoje no Brasil? Tome como exemplo os 20 times que disputaram o Brasileiro desta temporada. Quase todos jogavam de forma espelhada. Uma mesmice que aborrece o torcedor. Os jogadores surgem praticando um futebol robótico e não raras vezes os treinadores são flagrados tendo um ataque de histerismo à beira do gramado quando um dos seus comandados ousa e erra. Os Zé Regrinhas não comandam apenas crianças: alguns estão treinando em grandes equipes. O resultado disto é um futebol cada vez mais burocrático, menos técnico e submetido à tática. O penúltimo capítulo deste filme poderia ser Brasil 1 x 7 Alemanha pela Copa. O último? A derrocada do Brasil como país do futebol. Pelo menos do futebol que tanto admiramos e que atravessou décadas. Está evidente: numa arte da qual já fomos reis, não apenas paramos no tempo. Regredimos quando comparados a muitos países da Europa.