Hiltor Mombach

O futebol e seus incríveis efeitos

Vai algum tempo foi presenteado pelo querido amigo Evandro Krebs com um livro de José Miguel Wisnik. Trata-se de “Veneno remédio / O futebol e o Brasil” pela Companhia das Letras, 430 páginas. Dias atrás reproduzi um trecho. Faço o mesmo hoje.
“A divisão da população de uma cidade em times rivais, claramente dualizada em algumas cidades, como acontece com Grêmio e Internacional em Porto Alegre, Atlético e Cruzeiro em Belo Horizonte, e Bahia e Vitória em Salvador, obedece, para além dos perfis sociológicos, a uma necessidade antropológica: a de se dividir em “clãs totêmicos” mesmo no mundo moderno, e disputar ritualmente, num mercado de trocas agonísticas, o primado lúdico-guerreiro, como se não fosse possível ao grupo social existir sem suscitar por dentro a existência do outro — o rival cuja afirmação me nega me afirmando.
Em todos os casos, a base é uma só: ganhar remete ao imaginário (a sensação plena e fugaz da completude), perder remete ao real (à experiência de um corte que devolve ao sentimento da falta), e empatar, ou voltar ao zero a zero do reinício, é o pressuposto simbólico do jogo, que o movimenta e o faz recomeçar.
Quando vigora dentro dessas condições, o futebol é um instrumento de elaboração de diferenças, um campo festivo e polêmico de diálogo não verbal, projetado no terreno da disputa lúdica, que atualiza a necessidade de que haja um outro para que eu seja, de que um outro me afirme ao me negar.
Enquanto psicologia de massas, o futebol se inclui, em princípio, entre aquelas formações de hipnose compartilhada em que o sujeito se identifica cegamente, ao lado de outros que compartilham a sua identificação, com um objeto no qual reconhece um ideal-de-eu (no caso, o clube como ídolo, e os ídolos do clube a seu serviço).”
Enquanto em Salvador e Belo Horizonte outros times, como os do Rio e de São Paulo. dividem espaço com os locais, em Porto Alegre os torcedores são divididos entre Inter e Grêmio, Grêmio e Inter. Busco explicação para tal blindagem. Pode estar nos movimentos separatistas ou no fato de morarmos num estado que despenca do mapa do Brasil e em cujas fronteiras mais próximas não há potências futebolístas, pelo contrário, Grêmio e Inter, Inter e Grêmio, é que invadem Santa Cataria e Paraná.
“...Mesmo no mundo moderno, e disputar ritualmente, num mercado de trocas agonísticas, o primado lúdico-guerreiro, como se não fosse possível ao grupo social existir sem suscitar por dentro a existência do outro — o rival cuja afirmação me nega me afirmando.”
Havia registrado isto, mas com outras palavras. Vai algum tempo, quando do centenário do Internacional, pedi para o querido amigo Duda Kroeff, então presidente do Grêmio, fazer uma frase sobre o acontecimento. Saiu esta beleza: “Assim como o poeta só é grande se sofrer, não há você sem mim. Eu não existo sem você.”
Ah, a hipnose do futebol! Passo o ano me queixando que temos jogos demais e, nas férias futebolísticas, reviro os canais em busca de videotapes.