Hiltor Mombach

O futebol não respeita pandemia, enchente e atropela questões sociais. É outro Brasil

Lembro da pandemia que matou mais de 700 mil brasileiros (oficialmente). Isolado em Paraíso, lia estarrecido o noticiário dando conta da pressão de dirigentes pela volta do futebol

Equipes do Correio do Povo acompanharam a enchente de 2024, registrando momentos históricos
Equipes do Correio do Povo acompanharam a enchente de 2024, registrando momentos históricos Foto : Ricardo Giusti / CPMemória

O dirigentes de clubes têm a convicção de que o futebol é o umbigo do mundo.
Lembro da pandemia que matou mais de 700 mil brasileiros (oficialmente). Isolado em Paraíso, lia estarrecido o noticiário dando conta da pressão de dirigentes pela volta do futebol. E da enchente no Rio Grande do Sul e do que escrevi na época: "O Rio Grande do Sul está sepultando seus mortos pela enchente. Jogar futebol neste momento é sugerir que estamos vivendo na normalidade.
É constrangedor ver que os demais 17 clubes que disputam o Brasileiro da Série A ainda não lançaram nota de solidariedade pedindo que a CBF adie todo o Brasileiro até que seja restabelecida alguma normalidade no RS.
É constrangedor e vergonhoso ver como se pensa apenas no próprio umbigo. É um soco na cara de quem está sofrendo. Amigos, o futebol perto do que estamos vivendo tornou-se perfumaria. Que chance os clubes estão perdendo de demonstrar humanidade!"
Pois transformaram Inter e Grêmio em times nômades, obrigando a jogar em outros estados. Lisca, sensato, na época: “"Não quero parar o futebol, não quero suspender a competição, mas a ciência diz que precisa dar uma segurada”.
Os clubes devem bilhões, não negam e não pagam. Há muitos Brasis neste Brasil. O mais escandaloso é o Brasil dos nababos que passa o chapéu como quem mendiga na Rua da Praia. Estou falando dos clubes de futebol.
No meu Brasil, no seu Brasil, no Brasil dos mortais, dívida com o governo se paga ou se paga. Já o Brasil da grã-finagem é outro Brasil.
Vai tempo, o governo criou dois programas para recuperar os R$ 3,8 bilhões devidos pelos clubes (INSS, Receita Federal FGTS) e nem Refis, nem Timemania, que pedalou a dívida em intermináveis 20 anos, com a torcida ajudando a pagar, emplacaram. Hoje, a dívida está em R$ 16 bilhões.
É um outro Brasil habitando o Brasil. E, certamente, o Brasil dos clubes não é o meu e o seu Brasil.
É uma afronta, um desrespeito, a forma como tratam as questões sociais. Tão ou mais grave é ver estados ajudando financeiramente SAFs para compensar o patrocínio perdido com as Bets. Lembrando que os clubes só viraram SAFS porque quebraram por péssima administração.