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Por José Renato de Campos Araújo Ciudad de los Esportes, Ciudad do Mexico
Venho trabalhando numa frente de pesquisa junto com alguns alunos da EACH/USP, que tem por centro de análise a organização da Copa do Mundo no Brasil.
Investigação na qual empreendo ações que tentam monitorar em qual medida o Estado brasileiro (nos seus três níveis federativos) envolve-se com os dois megaeventos esportivos que o Brasil organiza nos próximos dois anos – a Copa do Mundo FIFA 2014 e as Olimpíadas 2016 – Rio 2016.
Levando-me inicialmente a entrevistar a presidência de 10 Tribunais de contas brasileiros, na tentativa de entender como vem ocorrendo, ou não, o controle do gasto público para a organização da Copa 2014.
O objetivo principal deste projeto de pesquisa está no tentar entender como o Estado brasileiro envolveu-se neste grande imbróglio que agora parece ser a organização destes jogos esportivos, que se estenderá por mais alguns anos.
Sem dúvida, aponto que tais questões continuarão na pauta pública brasileira, afinal com o fim do mundial de futebol estaremos a pouco menos dois anos da Rio 2016, e me parece que as manifestações com o sentido de aproveitar a realização destes megaeventos esportivos para cobrar dos governos soluções de problemas estruturais brasileiros presentes em nosso cotidiano há décadas, senão séculos, continuarão.
Vivemos hoje, no que se refere à organização das Olimpíadas, o que já vivemos em relação à Copa do Mundo há alguns anos atrás.
Em janeiro de 2014, apresentou-se a matriz de responsabilidades para a Organização das Olimpíadas de 2016, e mais uma vez arma-se uma bomba relógio sem que ninguém aparentemente se dê conta.
Vale dizer, nem os próprios movimentos sociais.
Entender esta bomba relógio, de certa maneira colaborará para o debate sobre o momento atual que vivemos, ainda mais agora que alguns responsáveis pelo que estamos vivendo já falam abertamente que os culpados são os outros.
Vejam o caso Paulo Coelho, embaixador da candidatura brasileira à Copa, além de ser um dos presentes ao lado das autoridades brasileiras na cerimônia de escolha do país sede em 2007, e o de Ronaldo Nazário que se apressam para desvincularem sua imagem pública deste torneio.
Mas será que estes personagens em 2007 não compreendiam que a candidatura como se configurava era uma grande bomba relógio?
Sinceramente, acho que não! Pois ainda não ouvi vozes apontando para algo que me parecia ser bastante esperado já há algum tempo. Em 2007, apesar da presença do presidente da República, Lula, e de seu Ministro do Esporte, Orlando Silva, houve uma grande cantilena comandada, principalmente, pela antigo presidente da CBF, reverberada por parte de nossa imprensa e por todas autoridades políticas – a Copa do Mundo é um evento privado, organizado por entidades privadas como a FIFA e a CBF, com isso os recursos necessários para a organização do torneio não viriam do erário público, sendo reservado aos governos tão somente os investimentos em obras de infraestrutura necessárias para a modernização de alguns setores carentes de nossas cidades brasileiras, o famoso legado!
Discurso repetido agora em 2014 quando os responsáveis pelas Olimpíadas, entre eles o Ministério do Esporte é bom lembrar, apresentaram ao público a matriz de responsabilidades dos jogos, com certo destaque para o fato de preverem que 75% dos investimentos serão privados, cabendo ao Estado brasileiro os 25% restantes.
Depois de 12 estádios construídos, e com já todos os investimentos realizados para a Copa de 2014 alguém acreditou nesta matriz de responsabilidades?
Bem, se não acreditaram quase não ouvi vozes contradizendo tanto o governo, como os organizadores das Olimpíadas, nem mesmo em nossa imprensa que agora repercute com bastante destaque a série de manifestações de ruas anti-Copa..
Parece-me que mais uma “crônica de uma morte anunciada” se desenvolverá na nossa frente e poucos, ou ninguém, de fato apontará o cerne deste grande imbróglio.
Afinal, o setor privado (faço o grifo, pois normalmente quando se fala de megaeventos o grande ator é o setor público) brasileiro não cumpriu aquilo que fora prometido pelo COL, e pelos mais diversos homens públicos brasileiros envolvidos na questão, pessoas das mais variadas matizes político-ideológicas em no mínimo 12 unidades de nossa federação e no governo federal.
Como vemos agora nas vésperas do jogo Brasil e Croácia, abertura da Copa, a presença do Estado brasileiro foi quase exclusiva quando analisamos os investimentos que colocaram as 12 arenas de pé, com a iniciativa privada não realizando investimentos de monta como fora prometido em 2007.
E, sem que figuras públicas, algumas com ótimo trâmite no mercado, como Ronaldo, tenham feito parte de sua tarefa, que seria justamente dar credibilidade ao COL para que este realizasse as parcerias com a iniciativa privada necessárias para o financiamento dos jogos.
Alguém acredita que nas Olimpíadas isto irá acontecer?
Vemos agora os governos brasileiros, em especial o governo federal, não sabendo lidar com este “legado” deixado pelo nosso setor privado.
Afinal, se o Estado brasileiro não fosse o protagonista financeiro na construção dos estádios brasileiros para a Copa, e se mantivesse estritamente naquilo que fora anunciado pelo COL, CBF e autoridades políticas, hoje, maio de 2014, estaríamos esperando o começo da Copa em outro lugar do mundo.
Pois, em nenhum momento a iniciativa privada brasileira demonstrou a menor intenção em fazer investimentos na construção de Arenas (vejam a enorme dificuldade que o Corinthians tem para vender os direitos de nome do Itaquerão), e quando o fizeram, sempre foi com total garantia do Estado brasileiro, como em Pernambuco, Minas e outros lugares nos quais a iniciativa privada participou ativamente, sempre como empreiteiras integrantes de PPP’s, na construções dos locais nos quais as competições ocorrerão.
Termino afirmando que o Estado brasileiro percebeu que a bomba estava armada, algo bastante previsível para aqueles que conhecem a dinâmica de nosso sistema econômico, e que se nada fizesse o fiasco internacional seria grande demais, o cancelamento dos jogos no Brasil.
Afinal governantes fizeram questão de estarem entre os protagonistas deste momento único na história do esporte nacional, e não só a imagem do Brasil sairia arranhada, muitas personalidades políticas veriam sua história política marcada.
Ao perceber a armadilha o Estado assumiu o risco ao deixar de lado as obras de infraestrutura tão prometidas nos idos de 2007, para assumir aquilo que em princípio seria de responsabilidade do capital privado, a construções das arenas desportivas.
Portanto, agora, num país que não mais engatinha em sua experiência democrática (afinal neste ano comemoramos 30 anos da eleição do nosso primeiro presidente civil após 20 longos anos de regime de militar), os governantes terão que lidar de alguma maneira com aqueles que de certa forma acreditaram nas oportunidades de desenvolvimento, que se configurariam os legados, cantados em verso e prosa em 2007, por gente, como Paulo Coelho e Ronaldo Nazário, entre outros, mas que agora exigem saber com quem ficará tal conta.
Trocamos e-mail onde coloquei: “O Estado não queria justamente esta armadilha? Sem esta armadilha, como liberar verbas, algumas sem licitação?”. A resposta está abaixo.
“Se levantarmos o cadastro de qualquer time brasileiro, inclusive os bem geridos como São Paulo e Internacional, veremos que é impossível emprestar R$ 1.000,00 dado seus históricos de mau pagadores) e que ninguém vem discutindo isso. Porque a iniciativa privada não se apresenta como investidora nos megaeventos?Há motivos sólidos para isto, não acha? E também para dizer que nesta história toda é muito fácil fazer de vilão o setor público, mas se analisarmos a fundo as coisas o Estado foi o único que cumpriu com aquilo que fora prometido. COL, CBF, clubes, investidores estão olhando para o céu, e agora querendo culpar o Estado, tão somente ele, pela péssima organização da Copa do Mundo. Portanto, meu caro, a imprensa deveria tentar quebrar este ciclo vicioso, onde sempre o vilão é o Estado, e seus agentes políticos, e ver que há bem mais entre o céu e a terra que nossa vão filosofia possa achar.”