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Em uma das suas crônicas Nelson Rodrigues escreveu o seguinte: “Ninguém confessa virtudes e repito: a simples confissão de virtudes não interessa nem ao padre, nem ao psicanalista e nem ao médium, depois da morte.” Um abismo separa a tragédia da virtude: a tragédia vira manchete; a virtude rodapé. O que vou escrever agora pode parecer uma verdade exagerada: é a indignação que move o ser humano e a tragédia carrega todos os ingredientes que nos revoltam. O caso do motorista que provocou um acidente com morte em Capão da Canoa e que incrivelmente foi solto pela Justiça mesmo depois de a polícia constatar embriaguez ao volante e ter indiciado o condutor por homicídio doloso (tentou fugir duas vezes) provoca comoção e vem ganhando manchete. Justas manchetes, diga-se. Como seria justa uma manchete assim: “Marcelo Grohe se envolve em acidente e ajuda a vítima”. O goleiro do Grêmio se envolveu em acidente em Campo Bom. Não estava bêbado. Ele bateu em um cavalo e em razão do impacto, um menino de 10 anos caiu da montaria. Grohe ficou no local esperando a SAMU e acompanhou o menino até atendimento no hospital. Grohe estava em baixa velocidade e, como não apresentava sinais de embriaguez, nem passou pelo teste do bafômetro. Entre o irresponsável e o cidadão, as manchetes vão quase todas para o irresponsável. Porque é isto que nos atrai. E isto explica porque, cada vez mais, os noticiários dão conta de catástrofes, de coisas ruins. Parodiando Nelson Rodrigues, diria que ninguém mais confessa o bem, que a ação virtuosa não desperta nosso sentimento: a simples confissão do bem, da ação virtuosa, não interessa nem ao padre, nem ao psicanalista e nem ao médium, depois da morte.