Hiltor Mombach

“O mau humor de chuteiras”

"O futebol é um jogo simples entre dois times, com 22 jogadores correndo atrás da bola, em que a Alemanha vence no final" GARY LINEKER

O jornalista Marcelo Dunlop é um apaixonado por frases. 
Mais do que isto: um colecionador. Decidiu colocar todas num livro que recebeu o título de “O mau humor de chuteiras”. 
Segue uma entrevista algumas frases.
Como surgiu a ideia do livro?
1. Como surgiu a ideia do livro?
O Nelson Rodrigues dizia que certos clássicos nasceram 40 minutos antes do nada. O livro “O mau humor de chuteiras” nasceu bem depois disso. Provavelmente quando eu, garoto, puxei da estante do meu avô a antologia de frases venenosas e mal-humoradas que o Ruy Castro lançou em 1989. Foi provavelmente o primeiro livro adulto que li, aos 11 anos. Trinta anos depois, perguntei ao Ruy o que ele acharia de uma antologia só de frases de futebol ao estilo dos livros dele. Ele deu mais que uma forcinha, deu uma sacudida no meu ânimo e a coisa aconteceu. Eu havia começado a apurar e pesquisar para o livro antes da Copa do Mundo da Rússia, mas com os conselhos e macetes do Ruy a coisa finalmente ganhou corpo. Quando falei com ele a antologia estava sem brilho, com as frases de sempre, que mal chegavam a 200. Parecia um Bambala contra Arranca Toco. Quando levei o projeto para a editora Mórula, já estava encorpado, com quase 600 frases – modéstia às favas, já parecia um Fla-Flu com o Maracanã engalanado e com casa cheia.
2. Quanto tempo durou?

Eu ajudei a editar a antologia de frases do Verissimo em 2016, foi minha primeira experiência literária. Depois daquilo fiquei animado para criar novos projetos. Antes da Copa da Rússia de 2018, eu já tinha pensado na antologia, mas não consegui convencer nenhuma editora. Lembro até do instante em que tive a sacada. Certo dia abri um dicionário de citações do Paulo Rónai e reli a clássica tirada do Millôr: “Todo homem tem o sagrado direito de torcer pelo Vasco em arquibancada do Flamengo.” Logo percebi que todas as frases do livro teriam de ter esse padrão de qualidade milloriano, ou seriam limadas sem dó. Por isso a demora. Quando a Copa da Rússia passou, eu percebi que o livro só faria sentido na Copa do Mundo seguinte. O autor sempre fica ansioso, mas o livro não. E normalmente é ele quem manda. Foi perfeito, deu para apurar com muito mais rigor e a Mórula fez o resto, no capricho.
3. Como foi seu processo de checar a origem das pérolas?
Foi a parte mais divertida, me senti um Indiana Jones resgatando frágeis tesouros. Em vez do chicote, usei o Google Books. Visitei bibliotecas virtuais, livros antigos, li e reli centenas de livros, ouvi tudo que foi mesa redonda, conversei com velhos jornalistas, ex-jogadores e treinadores. Um dos lances curiosos: mandei um email ao Juca Kfouri para perguntar se tal frase era dele. Ele respondeu na hora: “Olha, o Mario Prata diz que é minha mas eu desconfio que é do Armando Nogueira”. Chequei nos livros do Armando e estava lá. A frase é uma joia e abriu um dos capítulos. A escavação mais marcantes foi para localizar a suposta frase “Mas já combinaram com os russos?”, a que Garrincha nunca disse, e que localizei o autor e o contexto, numa biografia do Domingos da Guia. O Ruy Castro vibrou e escreveu uma crônica na “Folha” sobre a verdadeira frase. Outro prazer grande foi aprender tudo sobre a frase do Neném Prancha sobre o presidente bater o pênalti. Tudo começou com um pênalti batido na lua por um certo Valseque, do Botafogo. Sem o pé descalibrado de Valseque, não teríamos a frase. Torço para que o povo gaúcho se divirta com o livro, há uma penca de frases dos craques do sul. Até agora, só elogio, como esta resenha do David Butter:
Há um novo clássico entre nós: “O mau humor de chuteiras”, com edição de Marcelo Dunlop. O livro compila algumas das melhores frases sobre futebol com que você já topou (no geral, sem saber o autor direito) e também aquelas frases com que você nunca topou — há muito a descobrir, de um jeito ou de outro.
“O mau humor de chuteiras” é organizado por tópicos, de A a Z: de “Ai” a “Zebra”. “Tem de Carlson Gracie à Rainha da Inglaterra”, avisa Dunlop sobre um rol de frasistas em que figuram jogadores, treinadores, torcedores, comentaristas, personagens da cultura e até quem olhou o futebol meio de lado:

Não é preciso ter jogado futebol para ser técnico. Você não precisa ter sido cavalo para ser jóquei. ARRIGO SACCHI

... e Deus criou o jogador brasileiro (aí o diabo criou o técnico para atrapalhá-lo).  OTELO CAÇADOR

O futebol é um jogo simples entre dois times, com 22 jogadores correndo atrás da bola, em que a Alemanha vence no final. GARY LINEKER

No Oriente Médio, pratica-se um jogo bem semelhante ao futebol, só que é jogado com um quibe. PERRY WHITE

O futebol e a Copa do Mundo de 2002 contribuíram mais para a reconciliação entre Japão e Coreia do Sul do que cem anos de diplomacia. PRINCIPE TAKAMADO DO JAPÃO

Alemão não joga futebol, alemão luta futebol.  REINHARD SAUER

O continente africano produz alguns dos melhores jogadores para o mundo e não recebe nada em troca. O mundo ainda nos vê como escravos. Vivemos uma segunda escravidão. ROGER MILLA

Será que este povo que rezou junto e está berrando junto não será capaz de trabalhar junto, de viver em paz junto? Não respondo; não sei. A hora não é de pensar; é de berrar, berrar, berrar: Brasil! Brasil! Brasil!  RUBEM BRAGA, EM 1970

No Brasil se joga futebol com alegria, enquanto na Rússia jogamos com seriedade. É por isso que nós perdemos tanto.  SERGEY BRILEV

Garrincha não era de carne e osso. Se o Mané fazia uma coisa em campo, no replay fazia outra.  NEI CONCEIÇÃO

Nem tudo que é torto é errado Veja as pernas do Garrincha e as árvores do Cerrado.  NICOLAS BEHR

Todos os jogadores do mundo são marcáveis, menos Mané Garrincha. Mané em dia de Mané, só com um revólver. NILTON SANTOS

Overlapping ou ponto futuro é um troço que Mané Garrincha fazia sozinho.  NILTON SANTOS

O Campeonato Brasileiro anda tão longo que devia ser disputado por pontos andados, para que os corridos não fiquem tão exaustos ao fim da temporada.  MARCO BIANCHI

REPÓRTER: Qual o segredo dessa longevidade? 
WINSTON CHURCHILL, 90 ANOS: o esporte, meu caro, o esporte. Jamais o pratiquei.
Jogador que luta incessantemente pela bola recebe dois tipos de análise crítica: nas vitórias, polivalente; nas derrotas, peladeiro.  ZÉ ROBERTO PADILHA