Hiltor Mombach

O menino e a bola

Dias atrás escrevi sobre os campinhos de futebol que o frenesi imobiliário engoliu.
Hoje, falo sobre a bola do meu tempo de guri na minha querida Garibaldi.
A bola tinha uma importância fundamental entre a gurizada.
Mais do que esta parafernália tecnológica para a garotada de hoje.
O dono de uma bola número 5 garantia lugar certo no time e escolhia  posição.
Porque haviam poucas bolas número 5.
Mesmo sendo um notório perna-de-pau o dono de uma bola número 5 determinava sua escalação como atacante se assim decidisse.
Não fosse o dono, iria para o gol.
Todo perna-de-pau tinha lugar garantido no gol.
Como só havia um goleiro e muitos pernas-de-pau, os demais iam para a zaga.
Do meio para frente jogavam os melhores.
Respeitava-se esta hierarquia.O dono da bola era o bambambã e também o dono do jogo.
As bolas tinham todas a mesma cor alaranjada e eu ganhava uma a cada Natal.
Tinha status de titular, portanto.
Onde há um menino e uma bola, a imaginação voa.
Minha imaginação buscava um goleiro chamado Aranha Negra, cujo nome vim a saber bem depois: Lev Ivanovich Yashin.
Mesmo com status de titular, preferia ser goleiro.
Atuava de preto do Guides à camisa, passando pelo calção forrado ao lado para suavizar os voos que eu imaginava dar.
Ali, nos campinhos, eu não sonhava em ser o Aranha Negra: eu era Aranha Negra, personagem que sequer conhecia da televisão  ou do cinema.
Para a bola durar um ano era preciso cuidado.
Os gomos de couro eram unidos por costura feita à mão e eu passava sebo nos fios para evitar a penetração da água.
Para encher a câmara, passava num posto de gasolina e usava o calibrador de pneus.
E toda atenção do mundo para não estourar a câmara.
Muitas vezes era difícil encontrar o ventil da câmara e, neste caso, recorria a alguém que possuia uma bomba específica.
Poucos tinham.
Em dias de chuva o couro encharcava e a bola parecia pesar quilos e mais quilos.
Cabecear tornava-se um ato de heroísmo.
A bola era uma relíquia.
Resta a lembrança de tempos que não voltam mais e recorro a uma letra de Paulinho Nogueira,
“Menino Jogando Bola”.


Jogando bola!
Que alegria que ele tem!
Sou gente grande,
Que é que tem isso?
Eu quero ir jogar também...
Tenho pena de quem cresceu demais
E perdeu a vontade de brincar...
A maior lembrança deste mundo, eu sei,
É reviver uma saudade que a gente tem...