O PASSADO, O PRESENTE
O imortal Nelson Rodrigues abriu assim uma das suas crônicas: “O
patético de nossa época é que o passado se insinua no presente, e repito:
a toda hora e em toda parte, a vida injeta o passado no presente.
Olhem em torno e vejam. É terrível. O passado irrompe numa gravata,
num gesto, num sapato ou num colarinho...”.
Abro com Nelson Rodrigues para falar do Grêmio. Melhor: de um Grêmio,
não deste, chumbado à crise, mas daquele multicampeão, ligado
aos céus pela competência e pela sorte. É o passado se insinuando no
presente. Aquele Grêmio parecia tocado por uma varinha mágica. Lembro
de um fato emblemático: num chute, marcou dois gols! Aquele Grêmio
marcava gol de barriga. E, neste tempo, havia um outro Inter, o Inter
adverbial: quase finalista da Copa do Brasil em 99, quase campeão
nacional em 97, quase campeão do Brasileiro de 2005...
A dessemelhança de anos atrás chegava a ser escandalosa. Como é
hoje. Mas veste outra cor.
Hoje, o Grêmio manda desembarcar um ídolo, Renato Portaluppi, para
fazer renascer a Fênix e, na estreia, assim, no primeiro suspiro, o Grêmio
é varrido da Sul-Americana.
O Inter, bem, aqui cometo uma verdade exagerada: o Inter manda
desembarcar Roth, espécie de inimigo número 1 do torcedor, rejeitado
pela imensa maioria dos colorados, que acerta o time, conquista a Libertadores
e coloca no Mundial, em outra Libertadores e na Recopa.
O Grêmio despacha o zagueiro Rodrigo, é ameaçado com multa
rescisória de R$ 7 milhões e avisa que o jogador jamais vestirá a camiseta
do clube; o Inter, que gostaria de se ver livre de Fabiano Eller sem
pagar um tostão, vê surgir um time do Qatar para levar o jogador, e este,
feliz, declara que irá torcer pelo time no Mundial.
