Hiltor Mombach

O patético de nossa época é que ainda nos escandalizamos com pouco

Mesmo diante da banalização do doping, a palavra deflagra no brasileiro a mais absurda estupefação

O judoca Mohammad Samim Faizad, do Afeganistão, protagonizou o primeiro caso de doping durante os Jogos de Paris-2024.
O teste apontou o uso do esteroide anabólico estanozolol, o mesmo com o qual o velocista Ben Johnson foi flagrado na Olimpíada de Seul-1988.
Lembro do que escrevi sobre doping vai algum tempo.
Segue o texto.
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O patético de nossa época é que ainda nos escandalizamos com pouco. Mesmo diante da banalização do doping, a palavra deflagra no brasileiro a mais absurda estupefação.
Talvez porque quando o assunto é doping, o Brasil engatinha. Conhecemos o doping superficialmente. Nem somos aprendizes perto dos bambambãs. China, EUA, Rússia...
Estes é outros países são mestres no assunto, especialistas em dopar. O doping tupiniquim apita feito detector de metal. Não passa em lugar algum. O doping dos mestres volta e meia constrange as agências de antidopagem.
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A Rússia terminou os Jogos de 2012 em segundo lugar no atletismo, atrás dos Estados Unidos, com 17 medalhas, oito delas de ouro, e há tempos é uma potência na modalidade. Se o doping verde-amarelo apita na hora, o doping russo só agora provoca escândalo. Atletas de ponta pagaram para se ‘enterrar’ exames médicos que mostravam o uso de drogas para melhorar o desempenho.
Uma comissão criada pela Agência Mundial Antidoping descobriu “uma cultura profundamente enraizada de fraudes” no atletismo russo. E identificou o que chamou de falhas sistêmicas na Associação Internacional de Federações de Atletismo, entidade que administra a modalidade.
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Lance Armstrong venceu o Tour de France por sete vezes consecutivas, um recorde absoluto, entre 1999 e 2005. Só em 2012, alguns anos após encerrar sua carreira esportiva, perdeu todos os títulos em razão do uso de dopagem bioquímica. Não deve ter perdido a fortuna.
Doping não é algo moderno. Em 1904, o americano Thomas Hicks, vencedor da Maratona Olímpica, foi pego pois havia tomado doses de estricnina e conhaque para aguentar o desgaste físico. Escrevi certa feita alguns tópicos sobre o assunto. Reproduzo e acrescento outros.
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O Brasil escandalizou-se porque o treinador Jayme Netto, do clube Rede Atletismo, assumiu a culpa pelo doping dos cinco atletas que disputariam o Mundial de Berlim: Bruno Tenório, Jorge Célio Sena, Josiane Tito, Luciana França e Lucimara Silvestre foram pegos por uso de eritropoietina recombinante. Até em matéria de doping vivemos no terceiro mundo.
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Antes de mais nada, vamos definir o que é doping: ‘É o uso de substâncias naturais ou sintéticas visando à melhora do desempenho dos atletas em competições. Este objetivo é ilícito e, por isso, são feitos testes de doping durante competições’.
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O dr. Alexei Koudinov, responsável pelo Doping Journal Web, afirmou que o ato de Michael Phelps de ouvir música antes das provas é considerado um método inválido, e vai mais além, afirmando que as medalhas do americano deveriam ser cassadas. O especialista disse que estudos revelam que o corpo reage a sons e músicas, aumentando a respiração e alterando os níveis de oxigênio no sangue. Para ele, música seria doping.
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O norte-americano Carl Lewis, atleta cara de bom rapaz, correu dopado em 1988 e só contou 15 anos depois. Norte-americanos, alemães da extinta RDA e chineses sempre figuraram entre os papas em camuflagem de doping. Comparados a eles somos amadores. Atacamos de chazinhos de camomila, pomadinhas e diuréticos e somos flagrados. Nós e os cubanos. Sottomayor, o Pelé do salto em altura, foi acusado de ter competido dopado no Pan-Americano de Winnipeg.
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Escrevi certa feita: ‘Doping é mesmo um caso social. Nada garante mais vantagem para um atleta do que uma ótima alimentação na infância e na adolescência. Nos Estados Unidos, em parte da Europa, há fartura, porque miséria lá ninguém atura. O Congo que se dane. O Congo e os favelados do Brasil. Não há suplemento alimentar que dê massa muscular a terceiro-mundista’.
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Sou favorável a atletas de altíssimo rendimento, competidores olímpicos, fazendo o uso de substâncias naturais ou sintéticas de forma discriminada, sob orientação, com permanente acompanhamento médico e com fiscalização dos médicos do COI. Talvez isso pudesse ter salvo a norte-americana Florence Griffith Joyner. Sua passagem meteórica e espantosa pelas pistas de atletismo podem ter decretado a sua morte aos 38 anos, em 1998, por uso indiscriminado de drogas proibidas para aumentar seu desempenho.
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Li que o doping “além da saúde, denigre com o cidadão, mostra o caráter da pessoa, ou melhor, o mau-caráter.” Se denigre tanto, porque tantos atletas de países ricos dopados em competições de alto rendimento? O esporte é um comércio. Um comércio que envolve tanto dinheiro que não faz sentido combatê-lo. O doping precisa ser incentivado pela indústria. Na moita, obviamente. Nas competições de altíssimo rendimento, os atletas de países mais ricos se dopam e não são flagrados. E, quando são, já estão milionários. Alguns competidores confessam o doping anos depois, para desmoralização de quem deveria fiscalizar. Já o pobre não se dopa. Não tem nem dinheiro para tanto. E, quando se dopa, usa produtos caducos, vencidos, ultrapassados. O doping é como a lei da vida. Sobrevivem os poderosos.