Hiltor Mombach

O volante brucutu

Nelson Rodrigues abriu assim uma das suas crônicas: “O patético de nossa época é que o passado se insinua no presente e repito: a toda hora e em toda parte, a vida injeta o passado no presente. Olhem em torno e vejam. É terrível. O passado irrompe numa gravata, num gesto, num sapato ou num colarinho”.
Lembram do volante brutucu?
Com a ajuda dos zagueiros trogloditas, o volante brucutu ajudou na formação da linguagem do rádio esportivo brasileiro, consagrou os narradores nas tardes de domingo.
Não fosse ele e não ouviríamos jargões do tipo “cada machadada, uma minhoca”, “ele não perde a viagem”, “ele abriu a caixa de ferramentas”, “bola prô mato que o jogo é de campeonato” ou “do pescoço para baixo tudo é canela”.

Volante brucutu era aquele cão de guarda que todo torcedor amava quando o time ganhava e culpava quando perdia.
Provando que estava certo Vergílio Ferreira quando disse que “o amor e o ódio são irmãos. Mas o ódio é um irmão bastardo”.
A verdade verdadeira é que o torcedor brasileiro sempre amou de paixão o volante brutucu. E sempre negou este amor.

Pois, e é aqui que eu quero chegar, acabaram com o volante brutucu.
Hoje, como espécie rara, é encontrado aqui e ali em campinhos de várzea.
O volante brucutu definhou de vergonha, tamanho o bullying.
Vergonha de matar ou morrer pelo time e receber sempre o rótulo de perna de pau.
Aquele primeiro homem que surgia como uma entidade em campo não existe mais.

Restam alguns raros exímios volantes e os volantes enfeitados.
Sem o volantão, os treinadores perderam a referência. O volante é o guidão.
Assim como um carro não anda sem guidão, um time não funciona sem volante. Sem o guidão, os treinadores estão perdidos.
Entre um volante brucutu e um enfeitado, sou sempre o brucutu. Mais: volante brucutu não é polivalente nem versátil: é generoso em matar toda jogada que se atreva a ameaçar a sua defesa.
Pelo fim do volante enfeitado.
Que os brucutus se assumam com tal!