Por DEIVISON CAMPOS
Doutor em Ciências da Comunicação. Coordenador do curso de Jornalismo da Famecos.
A recente contratação de Cuca, pelo Atlético Mineiro, e de Desábato pelo Grêmio movimento as redes sociais, pois os técnicos tiveram envolvidos em casos de estupro e racismo respectivamente.}
Em defesa dos acusados, surgem a argumentação de que os acontecimentos ocorreram no passado e que não podem ficar sem trabalhar.
Por outro lado, sinaliza com a ideia de que o que acontece no futebol, fica no futebol mesmo quando se tratar de crime, como nos dois casos.
Estupro e racismo não são desvio de caráter e nem equívoco.
São crimes, mas nos casos em questão não houve condenação – apesar de provas e de confissão – travestido de pedido de desculpas.
No entanto, o questionamento nesses casos deve recair sobre a instituição que contrata e não sobre o contratado, considerando que ele deva ter seu direito a trabalhar e atuar socialmente preservado.
Como se costuma dizer – no meio do futebol sobre os salários, ninguém obriga os dirigentes a contratar jogadores questionáveis por altos salários, ou no caso, profissionais envolvidos em casos de violência sexual, ou racismo.
A contratação de Desábato coloca o Grêmio, como a instituição que se declara antirracista, numa contradição.
Como denunciar casos de racismo contra suas equipes e promover ações contra racismo empregando alguém que publicamente realizou um ato racista?
Não chegará a uma resposta efetiva e vai seguir denunciando os racistas outros e acolhendo os seus – a premissa já conhecida de que os racistas são os outros. As pessoas têm direito a aprender, mas isso não apaga o crime – ato e injúria racial são crimes imprescritíveis.
Não chega a ser uma novidade no futebol gaúcho e nem no clube. Denúncias de racismo aumentam a cada ano durante o Gauchão.
Mesmo as torcidas do Grêmio são constantemente questionadas por cânticos desumanizantes – comparando torcedores colorados a macacos, e a polícia civil registrou por várias vezes a presença de supremacistas brancos em torcida organizada – sem falar no caso Aranha.
Também por uma estranha coincidência, a acusação de estupro de uma menina de 13 anos contra Cuca ocorreu quando ele era atleta do Grêmio. Isso não afeta diretamente a instituição, por ter sido um ato cometido por jogadores durante uma excursão à Europa em 1987, apesar do clube ter feito sua defesa na época e agora mesmo ter cogitado seu nome para substituir Renato.
No entanto, a marca sempre estará envolvida com o caso.
A coletiva do treinador quando de sua chegada ao Corinthians no ano passado em que se disse inocente – que durou dois jogos, levou a um desmentido de que a menina não o havia reconhecido, pois segundo reportagens de diversos jornais e portais de notícia, a justiça a defesa e Suíça confirmou a participação pela presença de sêmen do jogados no corpo da menina.
Mesmo não condenado, é sabido que a violência aconteceu.
Cuca retirou-se por um tempo e agora volta contratado pelo Atlético Mineiro, tendo suas qualidades de campeão exaltadas pelo clube. Mais uma vez reafirma-se a responsabilidade da instituição que o retirou do isolamento.
As contratações estão realizadas.
Portanto, o que precisa ser discutido como debate de fundo a ética do futebol profissional.
Sabidamente é uma área que desperta paixões e mobiliza pessoas de todas as idades, raças, gêneros, crenças.
Acusa-se e acolhe torcedores violentos. Realizam-se campanhas contra violência sexual e racismo e se contrata pessoas envolvidas em casos conhecidos.
Defende-se torcedores envolvidos em atos de violência e as vezes morte, ou quase morte.
Quais os aprendizados em ações, no caso as contratações, que valorizam pessoas envolvidas em atos criminosos têm a dar aos apaixonados?
Não podemos esquecer da imprensa esportiva – e aqui falo dos jornalistas profissionais que, muitas vezes, relativizam o que acontece dentro do estádio, fortalecendo a ideia de ser um território sem lei, ou se omitem em tratar de maneira direta essas contradições das instituições e do futebol. A ênfase no entretenimento muitas vezes faz com que questões socialmente relevantes sejam relegadas a um segundo plano, a não ser em momentos de fortalecimento de marca, como no apoio a Vinícius Júnior.
O futebol não está a parte da sociedade e ações como essa mostram as lógicas a partir das quais nossa sociedade se organiza.
Violência contra negros e mulheres não são consideradas e muitas vezes, como no caso do goleiro Aranha, que ousou posicionar-se contra o racismo – caso que também envolveu a instituição Grêmio, a vítima acaba sendo punida e desacreditada.
Este é o caso de Grafite, Márcio Chagas, e a mulher suíça que até hoje precisa conviver com as sequelas da violência e do permanente descrédito a sua acusação.
São muitos atores envolvidos no processo, mas os que deve ser diretamente questionados e responsabilizados são os dirigentes que contratam, atuando a partir dessa ética do futebol que segue o principio do ex-ministro Ricupero – “o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”.
Os clubes de futebol são instituições associativas que lidam com muito dinheiro e deveriam – assim como instituições de outros setores econômicos, ser mais transparentes e reguladas para que esses silenciamentos e apontamentos em relação ao “nossos violentos” não se perpetuassem, mas para isso alguns desses deveria ser sacrificado em seu direto a trabalhar.
O futebol é parte de nossa cultura e cotidiano. Não pode ser tratado em separado e não merece ser tratado dessa maneira.
